sexta-feira, 24 de abril de 2015

GUERRILHA AGROECOLÓGICA

Zildo Gallo
Além de horticultor doméstico (ver: "Meditações a partir da horta doméstica da minha casa" (http://zildo-gallo.blogspot.com.br/2015/02/meditacoes-partir-da-horta-domestica-da.html), há muito tempo considero-me um militante da causa agroecológica.
Nas minhas aulas no curso de pós-graduação em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente (Mestrado e Doutorado) do Centro Universitário de Araraquara (UNIARA), onde sou professor, costumo falar sobre os muitos porquês da minha opção pela agroecologia, que considero importante tanto para a saúde da natureza como a dos seres humanos, já que ela não adota o uso de defensivos agrícolas e adubos químicos.
No ano de 2009, o Ministério da Agricultura produziu uma cartilha (O olho do consumidor) bem detalhada, para divulgar o novo selo para produtos orgânicos, com ilustrações do cartunista e escritor Ziraldo. Diante da possibilidade de ter os seus interesses contrariados, a empresa Monsanto, fabricante de agrotóxicos e de sementes transgênicas, conseguiu, através da justiça, embargar a sua distribuição, que seria naquele momento de 620 mil exemplares. Com a proibição, muitos defensores da agricultura orgânica passaram a divulgá-la pela internet. Acredito que, de lá até hoje, a divulgação pelo meio eletrônico tem sido eficiente.
Como hoje eu tenho o meu blog e também tenho uma cópia da cartilha em PDF, resolvi disponibilizá-la para os meus leitores. Quem desejar uma cópia pode pedi-la pelo meu e-mail (zildogallo@gmail.com), que prontamente enviarei. A cartilha, que faz uma boa introdução sobre os produtos orgânicos para os leigos no assunto, ficou muito bonita do ponto de vista artístico e precisa ser amplamente divulgada, pois a causa é muito justa e relevante para todo o nosso planeta.

Veja a capa da cartilha.


PS.: também é possível consegui-la no endereço: http://www.redezero.org/cartilha-produtos-organicos.pdf

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Um apelo contra a aprovação da diminuição da maioridade penal para 16 anos.

Zildo Gallo



Ofereço este poema que escrevi em 13/11/2001 àqueles que, insensíveis, distanciados dos seus próprios corações, acreditam que a solução para a violência dos nossos dias seja a criminalização dos nossos jovens/crianças, transformando-os, de vítimas da exclusão, do individualismo e do egoísmo, em culpados pelos males e medos que real ou imaginariamente atingem a todos. É tão mais fácil culpabilizar os mais fracos, aqueles que têm poucos recursos para reagir... Acho isso um ato de muita covardia. À poesia! que ela faça o seu trabalho...

A OUTRA GUERRA

Um espectro ronda os nossos dias,
Arrasta-se corrosivamente,
Em silêncio.
Uma guerra sem tanques e bombas,
Sem soldados e batalhas abertas.
Uma guerra perto de nós,
Que só conseguem vê-la
Aqueles que têm o coração nos olhos,
Os que cultivam compaixão.
Uma guerra suja.
São limpas as guerras?
Batalhas travadas nas sarjetas,
Semáforos e terrenos baldios,
Nas favelas e cortiços.
Uma guerra da qual somos todos partícipes
Pela nossa indiferença
E ignorância.
Uma guerra que nos põe a erguer muralhas
Contra inimigos invisíveis.
Uma guerra que atira crianças na rua,
Crianças famintas,
Embrutecidas,
Armadas,
Desamadas.
Anjos deserdados em revolta.
Crianças que ainda sonham...
Embalados pela fumaça que enevoam
Os caracóis dos cérebros entorpecidos,
Brumas entorpecentes...
Brumas entorpecentes...
Brumas entorpecentes...
Imaginam-se em tênis coloridos,
Camisas estampadas,
Em aventuras fantásticas,
De vídeo games,
E desejam todos os doces das vitrines.
Crianças que intuem,
Que pressentem
A brevidade do seu tempo.
A qualquer momento,
Nesta guerra de guerrilhas,
Silenciosa e prolongada,
Num beco,
Uma faca ou bala...
Um enterro sem honras militares,
Sem toque de silêncio,
Só silêncio,
Solitário,
O funeral dos que não foram tocados
Pelas mãos invisíveis do Mercado,
Do Smithiano Mercado,
O deus dos nossos tempos,
O deus que a tudo regula
E a todos oferece
Nesgas de esperanças,
Um deus que se posta fora dos nossos corações.


terça-feira, 14 de abril de 2015

A riqueza e a diversidade: uma discussão sobre o valor das florestas na economia de mercado

Zildo Gallo


        
A profusão de plantas da Mata Atlântica brasileira favorece a sobrevivência de uma grande variedade de animais; a variedade produz variedade. As florestas das regiões frias, caracterizadas pela presença de poucas espécies, destacando as coníferas, como os pinheiros, não propiciam a mesma variedade de vida animal que a das nossas matas. As nossas matas do Cerrado também têm mais variedade que as das regiões frias, apesar de apresentarem menor diversidade que a Mata Atlântica. Esta discussão quantitativa é muito complicada, pois cada bioma tem a sua riqueza e a sua importância ambiental dentro do nosso planeta.
Contudo, podemos ver no Brasil muitas florestas homogêneas. São as florestas plantadas para o fornecimento de matérias primas para a indústria de transformação, como as de eucaliptos, para a produção de celulose e papel, e as de pinheiros, para a produção de móveis. No Estado de São Paulo também existem florestas plantadas de seringueiras, que fornecem matéria-prima para a indústria de artefatos de borracha. Nessas florestas a diversidade de vida animal é ínfima, quando comparadas com as florestas nativas: Mata Atlântica e Cerrado.
Andar no meio da Mata Atlântica, não é tarefa fácil para os habitantes do meio urbano, pois o emaranhado de árvores, arbustos e cipós dificulta sobremaneira a caminhada e é muito fácil perder-se no meio dela. Por sua vez, andar numa plantação de eucaliptos é muito fácil: as árvores são militarmente enfileiradas e debaixo delas não nascem espécies vegetais que compitam com elas; geralmente entre as fileiras os corredores permanecem livres o suficiente para se caminhar sem atropelos.  Então, é só caminhar em linha reta que se atravessa para o outro lado.
Qual floresta tem maior valor? a da Mata Atlântica? a de eucaliptos? Depende de que tipo de valor estamos falando. Se for do ponto de vista do mercado, a de eucaliptos é a mais valiosa. Se for do ponto de vista da biologia, a Mata Atlântica é a mais valiosa. As florestas naturais têm grande variedade de espécies vegetais e elas sustentam uma grande variedade de espécies animais (a variedade produz variedade). As plantadas têm uma única espécie e, assim, sustentam uma pequena variedade de espécies animais; todavia elas oferecem um retorno financeiro imediato que as florestas naturais não fornecem. As florestas plantadas são importantes do ponto de vista econômico e as naturais são importantes do ponto de vista do equilíbrio ecossistêmico.
O que estou querendo dizer? Estou mostrando que mercado e meio ambiente são conflitantes. A riqueza da variedade conflita com a riqueza financeira da monocultura. No Brasil, durante os anos da ditadura militar, prevaleceu a concepção utilitarista da economia mercantil em detrimento da ideia de equilíbrio ecossistêmico. Hoje, pelo menos, é possível manifestar-se contra a visão economicista da natureza. Também hoje ficou claro que as questões ambientais precisam estar regulamentadas, muito bem regulamentas, e que só isso não basta, pois há uma necessidade de monitoramento constante em defesa da preservação da qualidade ambiental.
Relembrando a história: pela Lei 4.771, de 15 de setembro de 1965, foi instituído um novo Código Florestal. Uma boa parte da legislação dizia respeito ao controle do corte indiscriminado das áreas florestais do país. Pelo Código, as florestas existentes no território nacional passaram a ser reconhecidas como de interesse comum a todos os habitantes do país. Havia uma preocupação com o reflorestamento, mas com a falta de uma descrição sobre quais espécies poderiam ser utilizadas, o Código Florestal de 1965 deu abertura a uma série de irregularidades no processo de liberação de créditos para o replantio de árvores.
Como não foi estipulado que o replantio deveria ser feito com espécies nativas, o reflorestamento passou a ser feito com espécies exóticas e também com árvores frutíferas. As espécies exóticas como o Pinus ssp e o Eucalyptus foram preferidas por sua maturidade precoce quando comparadas com as espécies nativas. Apoiados na legislação, muitos produtores agrícolas conseguiram financiamentos e reflorestaram nos moldes da monocultura e obtiveram ganhos financeiros com isso. Por sua vez, a natureza perdeu em termos de biodiversidade. Prevaleceu a ideia da riqueza financeira, propiciada pelo monocultivo, em detrimento da riqueza como variedade natural. Assim é o mercado: imediatista e reducionista.
No ano de 1965, o Brasil estava no seu segundo ano da ditadura militar. Será que o esquecimento sobre as espécies arbóreas a serem utilizadas no reflorestamento foi algo meramente acidental? Tenho a impressão que acreditar nisso é uma ingenuidade, ou não? Os ignorantes sobre a história do Brasil, que estão pedindo a volta da ditadura militar, talvez acreditem na ingenuidade dos governos militares: "eles erraram, mas eram bem intencionados", diriam eles, desculpando-os. Para esses vale o dito popular: "de boa intenção o inferno está cheio".


sexta-feira, 10 de abril de 2015

O monge, o menino, os animais e o papagaio que surgiu do nada

Zildo Gallo

          

Nesta crônica, procurei abordar um assunto que ainda é polêmico. Trato de um aspecto da crueldade humana, a crueldade em relação aos outros animais. Para me tornar o mais claro possível faço a seguinte trajetória: 1) lanço mão da sabedoria oriental, mais especificamente do budismo; 2) relembro de como era a relação com os outros animais na minha infância, nos anos sessenta do século XX e, por último; 3) relato uma experiência vivida por mim e por Claudia, minha companheira, no final do mês de janeiro de 2014, uma experiência bem recente e ainda muito presente na nossa memória.
Começo o artigo citando um trecho do filme do diretor sul-coreano Kim ki-Duk (2003), Primavera, verão, outono, inverno... e primavera: um monge vive com seu jovem aprendiz em um monastério flutuante, onde transmite a ele a filosofia budista. Num dia qualquer, o menino vai à floresta e faz crueldades contra um peixe, um sapo e uma cobra. Amarra uma pedra no corpo de cada um desses animais e se diverte observando o desespero deles enquanto tentam libertar-se. À noite, enquanto o jovem dormia, o seu mestre amarra uma pedra pesada em suas costas. Quando acorda, o menino sente dificuldade para caminhar com a pedra presa no seu corpo. Então, ele se dirige  ao monge e pede para ele retirar a pedra.
Transcrevo aqui o diálogo entre mestre e discípulo conforme traduziu Angela Guida em seu belo artigo A poética da crueldade: um olhar no humano e no não humano: "Ela [a pedra] o incomoda? Sim, mestre. Você fez o mesmo com os peixes? Sim, mestre. Você não fez o mesmo com o sapo? Sim, mestre. Não fez a mesma coisa com a cobra? Sim, mestre. Levante-se! Ande um pouco por aí. Não consigo andar. É muito pesada. Como acha que o peixe, o sapo e a cobra aguentaram? Foi errado o que eu fiz. Vá procurar os animais e os liberte das pedras e eu o libertarei também. Mas se algum deles: peixe, sapo ou cobra estiver morto... você carregará uma pedra em seu coração pelo resto de sua vida". O jovem aprendiz, após a conversa com o mestre, sai em busca dos animais, porém consegue libertar apenas o sapo, pois o peixe e a cobra já tinham morrido. A partir daí o aprendiz carregará na sua consciência, despertada pelo ensino do mestre, o peso da sua crueldade.
Aí está um ensinamento profundo sobre a crueldade humana. Não faça aos demais seres, não só aos seres humanos, o que não gostaria que fizessem contigo. Um aspecto bom desse filme é que ele alarga o conceito de alteridade, incluindo nele todos os outros seres, indo além de ser humano. Às vezes, as ações cruéis não têm conserto para as vítimas. Este é um duro aprendizado para os agentes da crueldade. A compreensão do "não dá para voltar atrás" tem um aspecto curativo; a dor presente na consciência poderá inibir futuras crueldades, ela tem um papel civilizatório, humanizador, é o famoso "aprendizado pela dor".
Hoje, para a maioria dos humanos, a crueldade em relação a outro ser humano já é bem compreensível. Todavia, em relação aos outros animais, a situação é bem diferente ainda, apesar dos avanços que vêm acontecendo há décadas. Na minha infância, nos anos sessenta do século passado, o sofrimento dos outros seres viventes não estava muito presente no nosso dia-a-dia, acho que nem um pouco presente.
No bairro onde morava, Vila Jones, no município de Americana (SP), muitas crianças tinham o hábito de caçar e engaiolar passarinhos. A minha rua ficava próxima ao sítio da família Jones, que contava com uma plantação de eucaliptos e com a mata ciliar da microbacia do córrego Pyles. Essa situação ambiental possibilitava uma vida silvestre até que diversificada, especialmente em relação aos pássaros. Diante da diversidade de aves, vários meninos de meu convívio armavam arapucas e muitos passarinhos caíam nelas. Os mais visados eram os de plumagens coloridas e os de belos cantos. Os pardais, que não se encaixavam em nenhuma das categorias, quando caíam nas armadilhas, eram soltos em seguida; a beleza trazia uma sina ruim. Alguns meninos caçavam e vendiam os exemplares caçados, havia um comércio visível e aceito, não questionado; naqueles tempos, ninguém era repreendido pelos pais por praticarem essas atividades, que hoje são consideradas ilícitas, inclusive.
Pior que a prisão em gaiolas, era a caça com estilingues, outra prática normal na minha infância. A caça com estilingues era crueldade pura, era um mórbido prazer, o prazer de tirar a vida. Eu nunca engaiolei e nem matei passarinhos, mas não tinha juízo de valor sobre a questão, de tão normal que eram as práticas. Tive estilingues, mas usava-os para aperfeiçoar minha pontaria, usando latinhas como alvos. Costumávamos pegar argila no córrego Pyles para fazer bolinhas do tamanho de bolas de gude, que endurecíamos no fogo. Essa arte cerâmica primitiva funcionava e produzíamos um tipo de munição muito dura e fatal para as frágeis avizinhas. Naquela época, caçar e prender pássaros não me atraía, pois estava muito envolvido com gibis e futebol, de onde tirava a minha diversão.
Comecei a me preocupar verdadeiramente com a crueldade em relação aos animais na minha adolescência, quando cursava o ginásio, e foi algo que aconteceu por conta própria, a escola não ajudou neste sentido, pois me lembro que, nas feiras de ciência, sapos eram expostos com as vísceras à mostra e com os órgãos funcionando (coração, pulmão etc.); aquilo já me causava um certo mal-estar. Com o tempo passei a defender os animais da crueldade humana, embora não seja efetivamente um ativista da questão. Inclusive, admiro muito os que fazem esse tipo de ativismo. Procuro manter uma coerência neste sentido, por exemplo, nunca presenciei um rodeio, por conta dos maus tratos infringidos aos cavalos e touros e sempre que posso, nos minhas aulas, exponho a minha visão sobre o assunto.
Agora, dando um salto para os tempos atuais, vou relatar uma experiência vivida por mim e por Claudia, no final de janeiro de 2014, quando chegamos de uma longa viagem pela Europa. Antes do relato, acho conveniente desenhar o cenário do acontecido: a minha residência fica num condomínio de casas, com muita área verde, no Distrito de Barão Geraldo, no município de Campinas (SP), muito próximo da Mata de Santa Genebra, um fragmento de bom tamanho da Mata Atlântica que sobreviveu ao imenso crescimento urbano da região e que é legalmente protegida nos dias de hoje.
Na noite do dia da nossa chegada da viagem, num dado momento, abri as duas folhas envidraçadas da porta da nossa sala de jantar e notei alguma coisa verde que se movimentava no quintal. Quando me aproximei, vi que era um papagaio. Andava com dificuldade e parecia machucado. Muito surpreso, peguei-o sem que ele oferecesse resistência e o levei para dentro de casa. Mostrei-o à minha companheira que também expressou grande surpresa e comecei a observá-lo para ver se tinha algum machucado. Não tinha nenhum, mas estava muito fraco. Notei que tinha as asas aparadas, o que indicava que ele era um animal "doméstico". Era tarde da noite e não sabíamos o que fazer naquele momento. Arrumamos um abrigo numa caixa de papelão e colocamos alguns grãos de cereais, alguns pedaços de frutas e água. O bichinho comeu sem parar. No dia seguinte, ele estava com outro ânimo, o mal dele era fome, muita fome.
Começamos então uma busca pela vizinhança, à procura do dono da ave perdida. O condomínio tem apenas 43 casas e, assim, a tarefa terminou logo, mas ninguém era dono do bichinho. Ele ficou muito à vontade na nossa casa e notamos que era muito dócil. À noite, quando estávamos sentados no sofá vendo televisão ele se aproximou, subiu no meu pé e começou a se roçar. Peguei-o no colo e ele se aninhou. Claudia fez o mesmo e ele repetiu o comportamento e, a seguir, ela deu-lhe um nome: Louro Antônio. A partir daquele momento ele passou a ser chamado assim. Apegar-se a um animalzinho como aquele é muito rápido. Começamos uma discussão sobre o que fazer com ele, o que não era tarefa fácil, pois sempre defendemos que as aves devem ficar soltas na natureza e não presas em residências. O que fazer?
Levantamos a hipótese de ficarmos com ele até que as asas crescessem e ele pudesse voar. Aí surgiu uma questão: ele era doméstico demais e poderia querer ficar nas proximidades e o nosso condomínio é cheio de gatos. Ele seria uma presa muito fácil. Aliás, não entendi como ele não foi comido por algum gato, pois acredito, pelo seu estado de fraqueza, que ele ficou muito tempo no nosso quintal. Como ele apareceu em casa também é um mistério, pois estava impossibilitado de voar e o nosso condomínio é todo cercado, mistério insolúvel...
Claudia teve a ideia de, no dia seguinte, irmos até a sede da administração da Mata de Santa Genebra, pois levantou a hipótese de que poderia existir lá algum trabalho de reinserção de animais silvestres nos habitats naturais. No dia seguinte, de manhã, fomos até a Mata e, por sorte, encontramos o biólogo responsável. Ele nos disse que não havia esse tipo de serviço lá, mas que eles tinham um convênio com o proprietário de um sítio em Jundiaí (SP) que recebia os animais, cuidava deles até que estivem preparados e, em seguida, soltava-os na natureza. Falou-nos também que, quando as aves domesticadas eram soltas, era muito comum elas não se afastarem da sede do sítio, em função de estarem acostumadas ao convívio com os seres humanos.
Imaginei que isso aconteceria com Louro Antônio, pois acredito que ele enfrentaria dificuldades para conseguir o próprio alimento e lá ele poderia tê-lo em abundância. Ficamos contentes com a possibilidade desse novo lar e voltamos para casa para apanhar Louro Antonio. No caminho de volta para a Mata, ele ficou um tanto estressado e começou a gritar, acho que entendeu o que estava acontecendo, pois acho que ele já nos tinha adotado como seus novos donos. Essa foi a saga de Louro Antônio, o papagaio que surgiu do nada. Acho que ele teve sorte por nos encontrar, pois acredito que mudamos positivamente o seu destino.
Ainda bem que hoje existem seres humanos preocupados em reparar os danos provocados pela crueldade em relação aos animais. Muitas espécies desapareceram por conta dela e muitas ainda correm riscos. Escrevi este artigo para honrar aqueles que militam na causa da defesa dos nossos irmãozinhos que ficaram completamente  indefesos diante da avassaladora expansão da humanidade por todo o planeta Terra e em homenagem ao Louro Antônio, que deve estar muito feliz no meio das outras aves que comungam com ele um destino parecido com o seu.

Referência
GUIDA, Angela. A poética da crueldade: um olhar no humano e no não humano (httpwww.letras.ufmg.brposlit08_publicacoes_pgsEm%20Tese%201717-3TEXTO%201%20ANGELA.pdf -  Acesso em: 09/04/2015).

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O menino americano e a bola de capotão

Zildo Gallo












Muitas vivências e fatos da nossa existência, por mais longínquos que estejam no tempo, sempre permanecem na memória. Permanecem porque carregam significados singulares, especiais. Muitos deles, caso analisemos rapidamente, podem parecer sem importância, mas, caso insistamos na observação, caso não "deixemos para lá", o que corriqueiramente costumamos fazer, sempre acabaremos por achar algum significado profundo escondido. A história que relato a seguir é um caso desses.
No final dos anos 60 do século passado, quando morava em Americana (SP), à rua Frederico Pollo, na Vila Jones, numa situação de muita pobreza e dificuldades econômicas concretas (existe dificuldade econômica não concreta?), eu e vários meninos da minha rua e das proximidades, que também enfrentavam situações parecidas, uns mais outros menos, vivenciamos durante algum tempo uma história inédita, até mesmo estranha, dada as nossas condições limitadas de vida e da percepção diminuta que tínhamos do mundo, pelo menos a minha era assim. Apesar da estranheza, a história era bem agradável, tanto que grudou nas paredes da minha memória.
Antes de narrar os acontecimentos pretéritos, que são bem curtos e singelos, acho conveniente descrever o cenário do enredo e, ao mesmo tempo, acrescentar algumas informações que, com o correr do tempo, fui adquirindo sobre a história de Americana, cidade na qual vivi a maior parte da minha infância, toda a adolescência e parte da idade adulta. São informações que considero importantes para a compreensão do sincrônico encadeamento dos fatos.
O nome do bairro, Vila Jones, homenageia uma das famílias de imigrantes americanos confederados, que começaram a se instalar, entre 1865 e 1885, nas terras próximas ao ribeirão Quilombo que, posteriormente, formarão o município de Americana. Os Jones são uma família com visibilidade e importância na história local. A senhora Judith Mac Knight Jones, esposa do Dr. James Roderick Jones (Jaime Jones, assim ele era chamado pelos brasileiros), além de ter no currículo o fato de ser tia de Rita Lee Jones, nossa eterna rainha do rock, também escreveu um livro importante, que resultou de uma grande pesquisa histórica, sobre a imigração e a instalação dos imigrantes confederados no Brasil do segundo império: Soldado Descansa! uma Epopeia Norte Americana sob os Céus do Brasil.
O cenário dos acontecimentos que vou narrar foi onde hoje funciona uma escola estadual, entre quatro ruas: Rua Washington Luis, Rua Florindo Cibin, Rua Martins Fontes e Rua Guilherme de Almeida. Neste quarteirão, nos anos 60 e 70, havia um campo de futebol, o Canto do Rio. Acredito que se chamava assim porque estava localizado perto da microbacia do Córrego Pyles, que ficava no sítio dos Jones. O nome do córrego, Pyles, também homenageia uma família de imigrantes americanos.
Quando eu me mudei para Americana com minha família, em 1963, o Canto do Rio estava vivendo um processo de deterioração. Antes, ele era bem cuidado e tinha, inclusive, em todo o lado que margeava a Rua Washington Luis, uma arquibancada construída com tijolos e concreto. Com o abandono, várias famílias começaram a saquear a arquibancada para, com os tijolos dali extraídos, ampliarem as suas residências; a arquibancada desapareceu em muito pouco tempo.
Apesar da degradação, o campo nunca deixou de ser usado enquanto tal, até que virasse uma escola. Que legal que tenha virado escola! Nos finais de semana ele era utilizado por um time que se formou a partir dos frequentadores do bar de um posto de gasolina na Avenida Campos Salles, o Servicentro Esso. Meu pai, Aristides, que trabalhava no posto, no seu primeiro emprego em Americana, também jogava no time, que era composto, na sua maioria, por operários das fábricas de tecidos da região, que, ao final da tarde, quando saíam do trabalho, paravam no bar, conhecido por todos como Bar do Posto, onde bebiam alguma coisa e jogavam conversa fora, antes de irem para sua casas. Tenho na memória alguns nomes de jogadores: Buzina, Piti, Viola e Japão. Lembro-me também que Piti era surdo-mudo e Japão era o borracheiro do posto. Guardei-os porque os achava engraçados, acho que é por isso, não sei, a memória é uma coisa muito estranha.
Durante os dias úteis da semana o Canto do Rio era das crianças. De manhã eu ia para a escola e à tarde rumava para o campo, onde encontrava outros meninos. Ficávamos esperando, conversando bobagens, até que aparecesse alguém com uma bola. Havia poucos meninos proprietários de bolas de futebol, eram os "donos da bola". E os donos de uma bola de capotão de tamanho oficial? Esses eram uma raridade, raridade mesmo. Uma bola Drible de couro, costurada à mão, de tamanho número cinco, grandona, era muito cara; naquela época ela era um desejo praticamente impossível de ser alcançado pela esmagadora maioria dos meninos do Canto do Rio.
Contudo, às vezes, os desejos mais difíceis podem ser atendidos, como num passe de mágica. Num dia, não me lembro de qual ano, eu e meus amigos esperávamos alguém com uma bola e eis que de repente, não mais que de repente (como no poema de Vinícius de Moraes), apareceu um menino que chegava acompanhado pelo pai. Ele era muito diferente dos meninos dali, comigo incluso, era alto, do tipo forte e tinha o rosto claro e rosado. Apresentou-se como Johnny, num português com sotaque engraçado, pelo menos eu achei engraçado. E, o que é mais importante: ele trazia consigo uma bola de capotão oficial, branquinha, lindona.
Johnny era americano e ficaria no Brasil por algum tempo. No tempo que ficou em Americana, ele virou o verdadeiro "dono da bola". Acredito que nenhum outro gringo tenha sido tão bem recebido e tão festejado como ele. Acredito que ele mesmo não saiba disso, com certeza. Brincamos muito com a bola de capotão do Johnny. Ele foi o primeiro americano que conheci pessoalmente. Conhecíamos os descendentes dos confederados, um americano legítimo como ele estava num outro nível e, ainda mais, ele tinha uma bola de capotão número cinco.
Um dia o Johnny foi embora e levou consigo a bola de capotão, nada mai justo. Um americano que gostava de futebol naquela época era uma raridade, a posse da bola era muito mais que merecida. Todavia, o mundo é sempre uma caixinha de surpresas.
Muitos anos mais tarde, quando trabalhava como professor no Departamento de Economia da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) foi que fiquei sabendo o nome completo do Johnny, John Cowart Dawsey. Ele foi professor da UNIMEP entre 1989 e 1996, conforme informa o seu Currículo Lattes. Eu, por minha vez, lecionei na universidade entre 1987 e 2006. Jung chama essas coincidências, que ele não considera assim, de sincronicidade.
Hoje, o Johnny (John Cowart Dawsey) é professor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e vejo, pelo seu Lattes, que ele é um pesquisador produtivo. Ele é uma espécie de "dono da bola" na sua área de conhecimento. Os comentários que ouço sobre ele são sempre abonadores Quanto ao futebol, tenho informações que ele continua gostando do esporte bretão como antes. Só que agora ele não é mais uma raridade, pois muitos americanos gostam de futebol, mas o menino Johnny foi um pioneiro nesta questão, isto ninguém tira dele.

PS.: A história é verdadeira, aconteceu mesmo. Resolvi transformá-la numa crônica, numa crônica sobre o futebol das crianças em tempos difíceis. A bola é um símbolo, um desejo, é um meio e, ao mesmo tempo um objetivo. Não é o jogador que atinge a meta (o gol), mas a bola chutada por ele. Por ser redonda, não sabemos onde começa e onde termina, o que é um enigma. Por ser redonda ela rola, se não rolasse, o futebol não seria possível. A posse de uma bola de qualidade era na minha infância uma forma de poder. Todavia, o poder tinha que ser exercido de forma democrática, porque não dá para jogar futebol sozinho. Esta é a beleza desse esporte: o "dono da bola" tem que dividir a bola para poder jogar.

domingo, 29 de março de 2015

Como começar a mudar o mundo a partir do Ocidente

Zildo Gallo


A partir do meu livro "Ethos, a Grande Morada Humana: Economia Ecologia e Ética" (2007), tomando como ponto de partida as questões inerentes ao Ocidente,  elaborei um conjunto de propostas que considero necessárias para que se comece uma trajetória positiva no sentido da construção de um mundo melhor. Seria uma espécie de "como podemos fazer a nossa parte". Não são propostas facilmente exequíveis, por conta do primitivo estágio civilizatório da humanidade ainda nos tempos atuais, mas são necessárias à própria sobrevivência da humanidade de forma digna. Não considerá-las neste momento, pode significar um passo rumo à barbárie.
Sobre a academia e a fragmentação da ciência - Em relação à fragmentação do conhecimento científico, tem-se observado uma mudança positiva, nos últimos anos, que já tem chegado ao meio acadêmico. A academia já tem, pelo menos parte dela, enfrentado a resistência ao conhecimento interdisciplinar. Trata-se de um exercício de humildade que o cientista precisa adotar, saindo do casulo da sua área de saber e se aproximando das demais. Contudo, há muito que avançar ainda; o ocidente ainda con­tinua muito impermeável à penetra­ção de saberes de outra origem; os conheci­mentos provindos do oriente servem para exemplificar. Mas, até em relação a estes, as resistências têm  diminuído, apesar da lentidão. A aceitação das medicinas chinesa e indiana são bons exemplos disso, por exemplo.
Sobre a ética planetária - A necessidade de se construir uma ética para o planeta Terra é de extrema impor­tância e sua relevância para a própria sobrevivência da humanidade é, cada vez mais, in­questionável. Os limites do estado-nação precisam ser superados. Doravante, é necessário modelar um novo projeto de civiliza­ção, baseado na paz e no cui­dado para todos os países. É preciso fundar um novo ethos para permitir uma nova convivência entre os ho­mens e destes com todos os demais seres do planeta. A nova ética deverá nascer da essência, da natureza mais profunda do ser humano. Ocorre que a essência do homem está muito mais no cuidado, na com­paixão, do que na razão e na vontade. Há que se resgatar a essência do humano. É preciso ir além da ciência, muito além. Trata-se de um projeto de caráter multicultural, envolvendo todas as tradições culturais de todos os povos, incluindo aí todas as religiões, indistintamente. Há a necessidade de aberturas de diálogos entre as culturas e religiões diferentes no sentido de se estabelecer um espaço de paz e tolerância entre elas.
Sobre a ética econômica - A aproximação entre ética e economia é cada vez mais necessária e será be­néfica para ambas. Muitos problemas éticos estão ligados a questões logísticas, que são objetos de estudo da ciência econômica, como o problema da fome, do saneamento básico e da exploração do trabalho infantil, entre vários outros. As soluções passam, muitas vezes, pela engenharia econômica, a engenharia econômica a ser­viço de um objetivo maior, ético: o bem-estar social. A responsabilidade pelo bem-estar social é de todos, não é só dos eco­nomistas, ela é nacional e transnacio­nal, porque os seres humanos que sofrem não podem ficar segregados nos seus territórios. É preciso encarar toda a humanidade como uma grande família. Onde quer que habitem, a preocupação com os que têm fome e padecem de doenças não pode cessar porque os aflitos estão do outro lado da fronteira. A ética econômica precisa ter este caráter universal.
Sobre uma filosofia para a natureza - O desenvolvimento da razão científica, que é o principal pro­duto da civilização ocidental, distanciou o homem da natureza e facilitou para que ele assumisse uma atitude arrogante e dominadora em relação a ela. Acontece que a racionalidade do ocidente é linear e fragmentada (cada ciência no seu quadrado), uma herança da Revolução Científica que teve início no século XVII, e os sistemas ecológicos são redes dinâmicas não lineares. Esta racionalidade não consegue captar a complexidade dos sis­temas vivos e o resultado disto pode ser visto nas tragédias ambientais que se espalham por todo o planeta. Quando se ana­lisa a modernidade científica e técnica, descobre-se por detrás dela o funciona­mento de uma determinada filosofia: o “realismo materialista”. A nova filosofia precisa ser uma alternativa ao realismo materialista; deve ser holística, ecológica e espiritual. Ela também precisa extrapolar o antropocentrismo, pois toda a natureza e os seus ecos­sistemas devem ser considerados. A ciência econômica, por exemplo, não pode cuidar só do bem-estar dos seres humanos, mas de todos os seres, indistintamente, que precisam de água com quali­dade adequada, de solos não contaminados, de ar limpo e alimentação.
Sobre a sustentabilidade do desenvolvimento -  O desenvolvimento sustentável deve ser aquele que, além de atender às ne­cessi­dades do presente, também não compromete a possibilidade de as gerações futuras aten­derem as suas próprias necessidades. A humanidade precisa rapida­mente ser capaz de tornar sustentável o desenvolvimento econômico. O conceito de desenvolvimento sustentá­vel tem limites; não são limites absolutos, são limites impostos pelo estágio atual da ciên­cia, da tecnologia e da organização social e pela capacidade da biosfera de absorver os efeitos antrópicos negativos. Tanto a tecno­logia quanto a organização social devem ser geridas e aprimoradas a fim de pro­porcionar uma nova era de crescimento econômico que não produza de novo as destruições que o progresso material tem provocado até agora. O desen­volvimento sustentável não é um estado de harmonia permanente. Trata-se de um processo de mudança bem difícil, mas necessário, onde o uso dos recursos, a alocação dos investi­mentos produtivos, o desenvolvimento da tecnologia e as mudanças institucionais têm que estar em conformidade com as necessidades do presente e do futuro. Do ponto de vista econômico, há que se pensar no longo prazo, o que significa uma mudança radical, pois o mercado atua quase que exclusivamente no curto prazo. Assim, é necessária a reintrodução do planejamento no debate econômico, algo que foi deixado de lado com a expansão do neoliberalismo a partir dos anos 80 do século XX, indo além do mercado.
Sobre o consumismo - Nos dias de hoje, o consumidor com poder de compra, com renda, fica ator­doado diante do imenso leque de possibilidades de consumo posto à sua frente e não consegue compreender as suas repercussões sobre o meio ambiente do planeta. Assim, as propos­tas de mudança nos padrões de consumo são importantes na busca da utopia de uma “sociedade sustentável”. Os consumidores podem e devem politi­zar as práticas de con­sumo, cobrando dos produtores práticas sociais e am­bientais responsáveis. Então, há que se fazer um esforço para diminuir a ignorância do consumidor sobre as repercussões das suas escolhas, ou seja, torná-lo ciente do impacto delas. É necessária e urgente uma “alfabetização ecológica”. Ela ajudaria o consu­midor a compreender as consequências das escolhas. Ensinar o “saber ecológico” será o maior papel da educação neste século. A alfabetização ecológica precisa se tornar uma obrigação para políticos, empresários e profissionais de todas as áreas, e deve ser, também, uma preocupação central da educação em todos os seus níveis – fundamental, médio, universitário e profissionalizante.
Sobre uma democracia global - A necessidade de se construir uma democracia global é óbvia tanto para os diri­gentes dos países maiores quanto para os dirigentes de países pequenos. Ocorre que, num mundo globalizado, as ações de cada país podem repercutir em todo o planeta até por séculos adiante e a democracia, nos moldes atuais, continua ele­gendo seus dirigentes com base em eleições nacionais para mandatos de durações curtas. O mundo tornou-se global e de longo prazo e a democracia ainda é nacional e de curto prazo. Neste sentido, para se democratizar, a globalização deve deixar de ser identificada apenas com o comércio, como acontece nos dias de hoje. As relações de comércio continuarão moldando o futuro próximo do planeta Terra por um longo tempo. Entretanto, para que elas aconteçam dentro dos marcos civilizatórios, terão que ser acompanhadas por uma crescente solidariedade internacional, que contemple investimentos para superar a exclusão social e as catástrofes locais. Uma democracia global tem que combinar a demo­cracia nacional com a solidariedade internacional e histórica em relação às socie­dades de hoje e às gerações futuras.
Os pontos levantados acima caracterizam uma Nova Utopia. Cada vez mais há que se pensar em termos globais. este é o princípio número um. Todavia, a globalização pretendida deve ir muito além da mera globalização econômica dos dias atuais. É necessário que se universalizem valores humanos lastreados em princípios igualitários e de justiça: fim da pobreza;  das exclusões por credos religiosos, raça, opção sexual etc. e; fim das desigualdades entre homens e mulheres. Muitos direitos também devem ser globalizados: segurança alimentar; educação; saúde; habitação; transporte coletivo etc. Enfim, há a necessidade de se pensar uma sociedade nova, sem privilégios de nenhuma ordem. O estado de bem-estar social (Welfare State), existente em vários países da Europa, com destaque para os países nórdicos, precisa ser universalizado como ponto de partida para uma nova sociedade. As palavras de ordem da Revolução Francesa (Liberté, Egalité, Fraternité) precisam ser postas de novo na ordem do dia, pois, afinal, somos todos iguais, ou não somos? A liberdade deve ser para todos e se tem algo que limita a liberdade, este algo é a pobreza. A fraternidade, por sua vez, é um valor que precisa ser universalizado, que precisa adentrar nos corações e mentes de todos os seres humanos, pois ela é o ponto de partida para a igualdade. Não dá para pensá-las separadamente, como costumeiramente acontece.
Referência

GALLO, Zildo. Ethos, a grande morada humana: economia, ecologia e ética. Itu, SP: Ottoni Editora, 2007.

terça-feira, 24 de março de 2015

A crise hídrica, o Sistema Cantareira e o desserviço da imprensa

Zildo Gallo


Choveu bem durante o mês de fevereiro e está chovendo bastante neste mês de março de 2015. No dia 23/03/2015 o portal G1, da Rede Globo, estampou a seguinte manchete: "Sistema Cantareira segue subindo e nível passa de 16,6% para 17,1%". Pelo título da matéria parece que estamos entrando no melhor dos mundos em relação à situação hídrica para a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) e para a Região Metropolitana de Campinas (RMC). A imprensa escrita também segue o mesmo caminho. O jornal Correio Popular, de Campinas, no dia 23/03/2015, fez uma chamada na sua capa com o seguinte  teor: "Cantareira: nível sobe a 16,6% na 16a  alta seguida". Só faltou soltarem rojões, numa queima de fogos apoteótica.
As chuvas constantes nos dois meses são mais que bem-vindas, mas elas estão longe de recompor o volume das águas do Sistema Cantareira, colocando-o numa situação confortável. Apesar das elevações, a situação ainda é crítica. Há um ano, o nível estava em 14,6% do volume útil, que já era muito baixo, e ainda não contava com os dois volumes mortos, adicionados em maio e outubro de 2014. A chuva dos últimos meses conseguiu recuperar apenas a segunda cota do volume morto. Para cobrir a primeira cota do volume morto, o armazenamento de água do sistema precisa chegar a 29,2%, o que completaria o conjunto do volume morto e chegaria à situação de 0% do volume útil (desconsiderando o volume morto, que é uma espécie de "reserva técnica"). Após atingir os 29,2% e, a partir daí, ultrapassando-o, indo além do volume morto, da "reserva técnica", é que efetivamente se pode considerar que tudo caminha rumo a uma real melhora (ver gráfico).

CANTAREIRA: nível, em % (com a capacidade total sem o volume morto)
Prelo gráfico acima, é possível ver que, na verdade, quando se retira o volume morto, em 23/03/2015, que representa os 17,1% festejados pela imprensa, chega-se a uma situação de cerca de -20% (vinte por cento negativos), ou seja, o sistema está devendo, está no vermelho. Isto parece muito aquela melhora de um paciente terminal, pois é preciso lembrar que o período da estiagem está chegando. Tudo parece caminhar no sentido de que adentraremos o tempo seco numa situação pior que 2014.
Antes da crise, o Sistema Cantareira abastecia 8,8 milhões de pessoas na Grande São Paulo e  hoje produz água para 5,6 milhões. O sistema conseguiu recuperar apenas o equivalente à segunda cota do volume morto. O Cantareira cortou 56% na vazão em relação a fevereiro de 2014. A quantidade fornecida passou de 31,7 mil litros/segundo para 14 mil litros/segundo. Pela gravidade do quadro, o fornecimento deveria ser ainda menor, mas o Governo do Estado, sócio majoritário da SABESP, parece não querer correr riscos, é o que parece à primeira vista. Medidas mais sérias de racionamento deveriam ser tomadas. É óbvio que isso não é agradável, mas não devemos esperar por milagres, por uma não estiagem. Pode até acontecer, mas não tem nenhuma racionalidade nisso.
Está chovendo muito e é bom que chova muito. Será bom se no mês de abril as chuvas continuarem com toda força. Torçamos para isso. Contudo, temos que ser realistas. Muita gente, vendo as águas caírem, podem ter relaxado. Isso é normal, pois ninguém gosta de ficar num permanente mal-estar, mas a vigilância é necessária neste momento. Relaxemos na medida do possível, mas fiquemos alertas O papel da imprensa deveria ser o de alertar permanentemente a população sobre o quadro real e sobre os riscos futuros. Quando ela não faz isso adequadamente, ela produz um desserviço.
Durante muito tempo permanecerá a necessidade de um contingenciamento do consumo de forma mais rígida, enquanto as obras de engenharia para aumentar a capacidade de armazenamento do sistema estiverem em andamento. A SABESP e os serviços municipais de água e esgoto têm que correr contra o tempo. Trata-se de recuperar o tempo perdido. Há anos os técnicos alertavam sobre a necessidade de investimentos no setor e eles não foram levados a sério.
Alguns municípios da Região de Campinas (RMC), que está ligada ao Sistema Cantareira,  possuem represas e, assim, conseguem uma autonomia. É o caso de Nova Odessa, que conseguiu aumentar a capacidade de três barragens da cidade através do seu desassoreamento. Outros municípios da região pretendem fazer o mesmo. Municípios que não têm represas deveriam pensar em tê-las e construí-las leva tempo. É tempo de correr atrás do prejuízo, não dá para relaxar.
O Consórcio das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) começará a elaborar projetos para o desassoreamento de represas municipais com o objetivo de aumentar a capacidade de armazenagem de água. Os sedimentos dos fundos das represas são compostos basicamente por areia e a areia é uma matéria prima importante da construção civil. A areia retirada poderia ser vendida, o que reduziria o custo da empreitada do desassoreamento. O PCJ está considerando essa possibilidade no seu planejamento. Será melhor para a região de Campinas precisar o menos possível da vazão do Sistema Cantareira, pois as obras necessárias para ampliar a sua capacidade de estocagem são de médio e longo prazos.
Agradeçamos pelas chuvas, mas não soltemos rojões. O racionamento está longe  de ser descartado. Uma diminuição drástica do consumo continuará sendo necessária por um longo período, principalmente na Grande São Paulo (RMSP), onde a situação é mais crítica.

SEMPRE ALERTA!

HAICAI DO DIA – 31/10/2026

Zildo Gallo   DILMA ELEITA PRIMEIRA PRESIDENTA DO NOSSO BRASIL               SÉRIE EFEMÉRIDE DO DIA