Zildo Gallo
Você
que já teve algum bem roubado, principalmente um bem de alto valor, já parou
para pensar que não foi apenas o ladrão e o receptador do roubo que ganharam
com a sua perda? Nunca imaginou que agentes insuspeitos e respeitáveis também
ganham com as atividades ilegais?
Peguemos
um exemplo. Roubaram o seu automóvel, um carro ainda novo e em bom estado, e
você não pode ficar sem um meio de transporte individual, pois necessita dele
para o seu dia-a-dia. A sua necessidade de repor o veículo roubado significa
uma nova venda para a indústria automobilística, correto? Vamos em frente. O
seu bem usurpado estava segurado e, assim, a sua perda foi compensada. O seguro
perdeu? Não, ele não perdeu, pois o seu seguro foi garantido pelos segurados
que não tiveram os seus carros roubados. Tem mais: quando uma região está muito
sujeita a roubos, os segurados pagam preços maiores pelos seguros, existe uma
precificação do risco. Os fabricantes de automóveis ganham e os seguradores
também e, para compensar, os consumidores de automóveis perdem.
Peguemos
um exemplo de menor monta e bem comum. Um menino teve seu par de tênis bacana
roubado por algum "menino de rua". Não tem seguro para tênis bacana e
os pais do garoto comprarão outro para ele, consolidando pelo lado do comprador
uma perda financeira real e definitiva. Novamente a indústria tem um ganho
extra garantido, repondo a mercadoria roubada. Imaginemos que o menino que
roubou o par de tênis tenha vendido baratinho para conseguir um pouco de droga.
Um garoto com pouco poder aquisitivo consegue dessa forma comprar um bem
inacessível a sua situação social e outro menino pobre ganhou "algum"
vendendo um pouco de droga. Os pequenos furtos para viabilizar a compra de
drogas são muito comuns; isso é por demais conhecido.
Outros
meninos, "mais espertos", não consomem drogas, apenas as vendem,
esperando algum dia serem reconhecidos pelos chefes do tráfego e tornarem-se
chefes também, tendo acesso aos mesmos bens de consumo que seus patrões. Os
seus chefes, que se mantém distantes das "biqueiras", aparentam-se
respeitáveis, têm belas moradias e compram todas as novidades que a indústria
produz, incluindo aí carrões e outros bens de luxo. Eles, como os ricos,
conseguem realizar os inúmeros desejos produzidos pela máquina infernal da propaganda
a serviço do capital. Duvido que os vendedores das agências de automóveis
questionem a origem do dinheiro de alguém que paga à vista, sem pestanejar,
mesmo que porventura saibam da procedência ilegal do dinheiro. Novamente uns
ganham e outros perdem: os traficantes e os vendedores de bens de alto valor
ganham e os consumidores de drogas perdem as suas saúdes física e mental.
Quanto
ao consumo de drogas e a economia de mercado, eu escrevi no meu artigo "Keep Walking: como sutilmente o mercado produz a brevidade das coisas ou
como as pessoas estão ficando cada vez mais hedonistas e individualistas", neste blog, o que vem a seguir:
" Um bom exemplo disso é o incentivo
ao consumo de bebidas alcoólicas. Já notaram que as propagandas de cerveja são,
em sua maioria, voltadas ao público jovem, com chamamentos erotizados? Se ainda
não notaram, observem. O máximo de prazer em cada garrafa e, quanto mais
garrafas, mais e mais prazer, esta é a ideia subjacente nas entrelinhas de cada
apelo publicitário. Do consumo de bebidas, que em termos de prazer tem seus
limites bastante estreitos, para o consumo de drogas ilícitas, cujos limites são
bem mais largos, é um pulo, um pulo bem curtinho. As drogas proporcionam um
prazer imediato bem mais intenso. Se o objetivo é a busca pelo maior prazer o
mais rápido possível, as drogas estão aí para isso, ou não? Os nossos jovens
apenas estão buscando o que lhes é sugerido todos os dias pela propaganda e
pela indústria. Eles são conduzidos a isso e depois são criminalizados por
isso. Como eu já disse no artigo citado acima: a HIPOCRISIA é a grife número um
do mercado.
As bebidas alcoólicas são vendidas à luz
do dia, legalmente, e as outras drogas são vendidas às escondidas pelo crime
organizado, que se enraizou em todos os extratos da sociedade, em todas as
classes sociais, assim como os consumidores de drogas ilícitas; a toxicomania
virou um grande negócio e movimenta fortunas diariamente. A propaganda de
bebidas alcoólicas, com destaque para as cervejas, que são ofertadas como se
não o fossem, abrem caminho para as drogas ilegais de forma subliminar, quando
vende a ideia do logo, do eterno agora, da felicidade já."
É
de conhecimento público que os roubos sustentam um mercado paralelo, que vende
muitas mercadorias, com destaque para os produtos eletroeletrônicos, a preços
bem menores que os do mercado legalizado. Esse mercado paralelo permite o
acesso a muitos bens valiosos, inacessíveis às parcelas mais pobres da população
por conta das restrições de suas rendas. Podemos chamar a isso de fenômeno Robin Hood, brincadeira... Quando roubam
o seu notebook e alguém o compra de um receptador, é como se você o tivesse
doado a esse alguém e a sua nova compra para repor o equipamento perdido
significará a fabricação de outro pela indústria, gerando empregos respeitáveis,
inclusive. A indústria ganha toda vez que algo é roubado, pois, na maioria das
vezes, os bens furtados são repostos por novas compras.
Por
acaso vocês já observaram que roubos aos fabricantes são raros? São raros
mesmo, pois os esquemas de segurança das empresas são muito eficientes. Algumas
fábricas são verdadeiras fortalezas, com seguranças armados e tudo o mais que
se fizer necessário para garantir a inexpugnabilidade Assim, quem são os
roubáveis? São os consumidores desprotegidos, aqueles que não têm guarda-costas
ou carros blindados. Eles sustentam os ladrões e as empresas, incluindo aí as
seguradoras.
Vamos
às estatísticas! Elas lançam luzes sobre o que estou escrevendo. Somente na
Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) foram roubados no ano de 2014 o total
de 8.417 veículos, 13% a mais que em 2013, quando foram roubados 7.435 (1). É
provável que tais roubos tenham dado motivo a novas compras, estimulando as
montadoras a produzirem novos veículos. Vejam bem, estou falando apenas da
RMSP. Em termos nacionais, em 2013, foram roubados cerca de 229 mil veículos
automotores (2). Em 2013, a produção total de automóveis, veículos comerciais
leves, caminhões e ônibus foi de 3,74 milhões de unidades (3). Os roubos
representaram cerca de 6% da produção das montadoras. Trocando em miúdos: para
cada 100 veículos fabricados em 2013, seis foram roubados. Caso não tivessem
acontecido esses roubos, a indústria automobilística teria produzido menos
carros e gerado menos empregos, concordam ou não? O aumento dos roubos estimula
os compradores de automóveis a fazerem seguros e os seguros ficam mais caros
por conta dos roubos. Trata-se de um círculo vicioso. Quem perdeu com os
roubos? as montadoras? as seguradoras? Não, elas ganharam. Quem perdeu foi o
consumidor, simples assim.
Moral
da história: se você não é dono das empresas que fabricam produtos roubáveis e
das seguradoras que reembolsam os consumidores lesados pelos roubos, cobrando
seguros mais caros à medida que os roubos aumentam, você sempre será o perdedor
no jogo do mercado.
A
equação do mercado é bem simples assim: oferta
(produção) de mercadorias = consumo via compras normais + consumo via crime.
O mercado não tem nenhuma moralidade, pois o que importa para ele é a
consumação da compra e de onde vem o dinheiro não interessa, desde que venha.
Em todo caso, toda vez que você comprar um bem valioso, faça seguro, pois assim
a sua perda será minimizada em caso de infortúnios, como um roubo, por exemplo.
No meu artigo "Ética e
economia: um bate papo com vários autores de vários tempos",
neste blog, eu escrevi o seguinte trecho sobre o pensamento smithiano a
respeito do mercado:
"Adam Smith publicou em 1776 a sua maior obra, A Riqueza das Nações: Investigações Sobre
sua Natureza e suas Causas, onde teceu grandes exaltações ao comportamento
individualista, considerando que os interesses dos indivíduos quando livremente
desenvolvidos seriam harmonizados, numa abordagem quase teológica, pela “mão
invisível” do mercado e resultariam no bem-estar de toda a sociedade. Essa
apologia do interesse individual e a rejeição da intervenção do estado na
economia, outra marca do pensamento smithiano, transformaram-se nas teses
centrais do liberalismo econômico."
Hoje, diante do que se tornou a economia de
mercado, muitos economistas, cientistas sociais e filósofos (eu me incluo entre
eles) questionam essa concepção econômica e consideram necessária a introdução
de uma ética no pensamento econômico, como é o caso do economista brasileiro
Cristovam Buarque (4):
"Exatamente
como nas demais ciências, o próprio êxito da ciência econômica começa a mostrar
seus limites. Nos países desenvolvidos o crescimento levou a crises
existenciais, a um elevado nível de poluição, ao consumo de drogas químicas e
de drogas econômicas do consumo, a uma forma de produzir ecologicamente
desequilibrante quanto à disponibilidade de recursos naturais. Nos países em
desenvolvimento, o crescimento ampliou a dependência, a desigualdade, a
instabilidade em todos os níveis, além de provocar os mesmos desequilíbrios
ecológicos dos países ricos. No conjunto, os países se dividiram ainda mais em
um mundo com uma ordem claramente irracional e instável."
Resumindo:
o mercado é amoral, mas, para o bem da humanidade, faz-se necessária a
introdução de alguma ética nas relações mercantis. O mercado completamente desregulado
é a oficina do Diabo e os que defendem a sua desregulamentação estão a seu
serviço. Não estão? Ah! estão a serviço do capital...
(1)
http://www.infomoney.com.br/minhas-financas/carros/noticia/3930695/numero-roubos-furtos-veiculos-subiu-durante-ano-2014)
(2)
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/11/roubo-de-veiculos-no-brasil-aumenta-quase-13-em-um-ano.html)
(3)
http://g1.globo.com/carros/noticia/2014/01/producao-de-veiculos-cresce-99-em-2013-e-bate-recorde-diz-anfavea.html
(4) BUARQUE, Cristovam. A desordem do progresso: o fim da era dos
economistas e a construção do futuro. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1993.
Nenhum comentário:
Postar um comentário