terça-feira, 24 de novembro de 2015

AMERICANA (SP) EM CRÔNICAS

ZILDO GALLO

Resolvi juntar numa única publicação todas as crônicas que têm como palco o município de Americana (SP). São várias e, com certeza, outras virão, pois passei trinta anos da minha vida nesse lugar, que tem este nome por conta da imigração de americanos sulistas, que para cá se dirigiram logo após o fim da Guerra de Secessão. Grande parte de minha formação como cidadão e profissional deu-se ali. Coisas boas e ruins aconteceram e as trago na memória; algumas delas já estão lançadas no papel e podem ser lidas aqui no meu blog. Esta juntada de textos visa facilitar a leitura, principalmente aos meus leitores americanenses. Há muitos anos estou fora dessa cidade, mas muitos momentos marcantes da minha vida deram-se nos intramuros dessa urbe. Às crônicas!

Escola de antigamente: é possível ter saudade?


Começava o ano de 1968. Eu me matriculava no curso ginasial do Instituto de Educação Estadual Presidente Kennedy (IEEPK), após ter concluído o curso primário no Centro Educacional SESI 101 em Americana. Americana era, ainda é, um polo importante da indústria têxtil nacional. Naquele tempo, para entrar no ginásio após a conclusão do quarto ano primário, era necessário prestar um exame de admissão, uma espécie de vestibular. Nem todos prestavam, muitos não prestavam. Lembro-me que da minha turma poucos o fizeram. A maioria parou ali e como era de costume, talvez mais por necessidade, iniciavam alguma forma de trabalho, algum aprendizado profissional, e quando chegavam aos quatorze anos de idade poderiam ter, com orgulho, o seu primeiro registro na carteira profissional. Começava assim um afunilamento, um afunilamento muito precoce, produzido pelas condições sociais.
O destino de cada um já se traçava muito cedo. Lembro-me de ouvir muitas vezes, da boca de várias pessoas: "para virar tear (ser tecelão) não precisa ser doutor". Eles até que tinham razão, pois virar os teares mecânicos da época, destino de muitos, exigia um aprendizado mínimo. Dessa maneira, ir além do quarto ano não era para todos. Lembro-me do pai de um garoto falando ao meu pai, no dia da formatura, que seu filho precisava ajudá-lo no trabalho, não me lembro o tipo de trabalho, talvez de pedreiro. Era assim, começava-se cedo na lide pela sobrevivência. Embora fosse tão pobre quanto aquele garoto, eu queria ter o privilégio de ir além do quarto ano, então prestei o exame de admissão e passei, nem todos os que prestavam passavam. O letramento era um privilégio que começava bem cedo.
O ginásio era muito diferente do primário. No primário tínhamos um único professor ou professora e no ginásio tínhamos um para cada matéria, mas acostumávamos muito rápido. Como eu tinha estudado no SESI, no primário eu não tive problemas com material escolar, pois os cadernos e livros eram ofertados gratuitamente pela instituição a todos os alunos, independente da sua condição social. No ginásio não havia essa gratuidade. O que poderiam fazer os estudantes que não podiam comprar os materiais, como no meu caso?
Nesse caso, havia a caridade, uma coisa chamada "Caixa", que recebia contribuições diversas e, com elas, fornecia materiais escolares e uniformes aos alunos carentes, após uma análise socioeconômica feita por funcionários da escola. Não eram muitos alunos os "da Caixa", pois a maioria dos muito pobres não prestava o exame de admissão. Lembro-me que não era muito agradável ser da Caixa, éramos crianças... Tínhamos que nos contentar com os cadernos tipo brochura, que denunciavam a nossa situação, não havia outro jeito, enquanto os mais aquinhoados exibiam os seus cadernos aramados do tipo multidisciplinas com suas capas duras e estampadas. Os cadernos já nos diferenciavam.
No meu primeiro ano de ginásio teve um fato que nos diferenciou ainda mais. O tênis indicado para a educação física deveria ter a cor branca, mas os responsáveis pela Caixa só conseguiram tênis azuis. Assim, num mar de calçados brancos apareciam alguns azuis. Eram os "da Caixa". Isso marcou tanto que cheguei a traçar um paralelo do tênis azul com a Estrela de Davi costurada nas roupas dos judeus na Alemanha nazista. Era um carimbo: POBRE.
As classes eram bem heterogêneas. Existiam alunos muito ricos, alunos de classe média, de classe média baixa e os "da Caixa". Entretanto, de uma coisa não se podia reclamar, da qualidade do ensino. Que pena que não era para a maioria. O sistema era bom, todavia excludente. Os "da Caixa" desejavam e eu, como um deles, também desejava completar quatorze anos de idade, arranjar um emprego com carteira assinada, se possível, e migrar para o período noturno. Só estudavam à noite os alunos que trabalhavam durante o dia. Para mim isso se deu nos meus quinze anos. Foi uma libertação: estava numa classe onde as diferenças sociais eram pequenas e podia comprar meu material escolar e meu tênis. A biblioteca da escola era muito boa e eu a usava muito, mas já podia comprar livros, isso era o máximo.
A qualidade de ensino era muito boa e a escola era muito exigente. Quando um aluno era reprovado duas vezes seguidas, ele era jubilado, o que não era nenhum júbilo, na verdade ele era expulso e não podia mais estudar numa escola pública. Os pais que tinham condições financeiras matriculavam os repetentes nas escolas PPP (papai pagou passou), os que não tinham deixavam os seus filhos fora da escola mesmo e pronto.
Tive muita sorte com meu primeiro emprego e me mudei para o ginasial do noturno no IEEPK. Naquela época havia uma injustiça absurda, os menores de idade recebiam meio salário mínimo, a lei permitia, e faziam o trabalho de um adulto, era o vergonhoso "salário de menor". Eu comecei recebendo um "salário de maior", fato raro naqueles anos. As livrarias e as bancas de revistas ganharam muito com isso. Tive mais sorte ainda por não iniciar a minha trajetória profissional num chão de fábrica; as tecelagens eram extremamente insalubres naqueles tempos. Comecei a trabalhar no administrativo de uma empresa têxtil e isso ajudou nos meus estudos. Naquela época, a lide diária dentro de uma tecelagem era muito cansativa e acabava desestimulando os operários a estudarem no noturno, poucos tecelões o faziam.
Pior que ser pobre no Kennedy, era ser pobre e negro. Havia muito preconceito racial entre os alunos. Vários professores alertavam sobre a questão, mas isso apenas mascarava a realidade. A escola podia pouco frente aos preconceitos aprendidos nos recônditos dos lares. Lembro-me que eram poucos negros, poucos mesmo. Na minha classe, no período diurno, havia um, o Custódio, éramos amigos. Ele acabou abandonando o ginásio, não resistiu, muitos não resistiam. Muitos anos depois eu o reencontrei num bairro periférico da cidade, enquanto exercia a minha militância de esquerda no auge da minha juventude. Também havia uma menina negra, lembro-me que era um pouco gordinha, ela não era da minha classe, não sei o seu nome, pois a conhecíamos como "Branca de Neve", apelido maldosamente dado pelas meninas e meninos brancos, que eram a imensa maioria. Americana tinha uma população negra de bom tamanho, mas, pelo que eu observava, poucos estudavam. Não sei como ela conseguiu concluir os estudos, mas conseguiu, uma heroína...
Hoje, do alto dos meus 59 anos, olhando lá para os idos dos anos sessenta e início dos setenta do século passado, consigo observar que muitas coisas mudaram. Ouço muito falarem que naqueles tempos a qualidade de ensino era bem melhor e não discordo, mas retruco: era para poucos. Pensando no ensino básico hoje, vejo como mudanças positivas a ampliação do ensino fundamental para oito anos, o fornecimento de livro didático, a alimentação escolar instituída, entre outras melhorias. O que se tem para lamentar: 1) o aparelho de estado (União, estados e municípios) não cumpre o seu papel de garantir educação de qualidade nas escolas públicas; 2) isso estimula o avanço do ensino privado para poucos, aumentando o apartheid social; 3) os professores eram melhor remunerados naquela época e, por conta disso, mais preparados. Para mim a coisa é muito simples: o Estado tem que fornecer uma educação pública de boa qualidade e aqueles que desejarem uma diferenciação ou uma educação com direção mais específica, como a de caráter religioso, por exemplo, que coloquem seus filhos nas escolas privadas. O que não pode haver é a exclusão, o apartheid, por diferenças no nível de ensino, só isso, bem simples.
Concluindo: sempre é possível ter saudade, a saudade é inerente ao ser humano, embora seja uma palavra da língua portuguesa de difícil tradução; excetuando o ensino primário, que era para todos, o restante era bem restrito e aí a origem social exercia o seu papel, mas a qualidade de ensino era muito boa, não restam dúvidas, e muitas amizades aconteceram nessa trajetória e do que mais nos lembramos com carinho é das relações, das boas relações, somos seres que se relacionam, estou aprendendo sobre isto.

PS. Com este artigo pretendo iniciar uma série para comparar um pouco a vida nos anos sessenta, setenta e até um pouco dos oitenta com os dias de hoje, no sentido de relembrar para uns e de informar para outros. O mundo e o Brasil mudaram muito e continuam mudando e, assim, acho interessante e até mesmo produtivo escrever a respeito. O mote da minha escrita será a minha trajetória. Rever-me-ei e reverei os tempos idos.

O lixo em Americana, a sociedade de consumo e o consumismo


O município de Americana/SP, por conta de uma séria crise na gestão municipal, ficou sem a coleta de lixo durante um bom tempo. Não pretendo falar aqui sobre a falência da prefeitura, nem sobre a cassação do prefeito, não tocarei na questão política, mas pretendo refletir um pouco sobre a produção de lixo. Por que produzimos lixo? O que nos leva a produzir lixo? O que é o lixo, afinal de contas? O que fazer com ele? É possível produzir menos?
O lixo como conhecemos hoje é um resultado da modernidade, com o seu sistema industrial e suas cidades. Antigamente, quando a maioria das pessoas vivia no meio rural e quando não existia a indústria petroquímica produzindo plásticos, os resíduos sólidos resumiam-se quase que a restos de alimentos, que eram servidos aos animais domésticos. Os demais tipos de resíduos eram poucos e colocavam- se na categoria de degradáveis num tempo relativamente curto, quando deixados na natureza, como no caso das fibras têxteis que tinham suas origens em vegetais (algodão e linho) e animais (couro e lã). Praticamente não havia a necessidade de aterros sanitários e de um sistema de gestão de resíduos.
Hoje, a maioria das pessoas vive nas cidades, onde os restos de alimentos não são consumidos pelos animais domésticos. Para complicar o quadro, a indústria acabou desenvolvendo produtos que não se degradam facilmente na natureza, como é o caso do plástico. O plástico tem uma infinidade de usos e também acabou sendo usado como embalagem, ocupando o lugar do vidro, do papel e da madeira. Também surgiram outros tipos de embalagem de difícil degradação, como os papéis laminados, por exemplo. Na segunda metade do século XX entramos no mundo dos descartáveis. As coisas também ficaram mais baratas, pois o plástico é muito barato. Talvez, este seja o lado bom. Estou chovendo no molhado, todo mundo já sabe disso. O problema é: o que fazer com tudo isso?
Muitos respondem de imediato: coleta seletiva, reciclagem e compostagem. De fato, mesmo sem saberem, querem dizer: continuemos consumindo e produzindo lixo e a prefeitura que dê um jeito nas nossas sobras. Parece bem simples, mas não é. Por trás dos resíduos sólidos, isso que o povo vulgarmente chama de lixo, tem muitas questões escondidas e complicadas.
Comecemos pelo tratamento do lixo. Não é uma tarefa fácil e muito menos barata. As prefeituras não conseguem repassar aos munícipes os custos totais do sistema de tratamento, que muitas vezes, resume-se a um simples aterro sanitário, ou um simples "lixão" sem nenhum controle. Muito recurso financeiro e também muito trabalho são utilizados para dar conta das nossas sobras. É caro, mas deve ser feito, neste momento não temos outra saída. Precisamos separar os resíduos, reciclar os recicláveis, fazer compostagem com os orgânicos e enterrar os que não se encaixam nas duas categorias anteriores. Mais adiante deveremos caminhar no sentido da efetiva diminuição da produção de resíduos.
Voltemos ao caso de Americana. Quantos cidadãos, quando viam os sacos de lixo amontoarem-se a cada dia nas calçadas, além de se indignarem com a não coleta, que, de fato, merecia grande indignação, fizeram a seguinte indagação: como eu produzo tanto lixo? Alguém arrisca uma resposta? Não é uma pergunta fácil de se fazer, pois ela significa a possibilidade de um olhar além da montanha dos resíduos das nossas vidas e as respostas podem não ser muito agradáveis. Os cidadãos americanenses e sua produção diária de resíduo é apenas um mote com o qual faço um chamado à reflexão sobre o significado do consumo moderno, que, evidentemente, não cabe neste pequeno artigo. Aqui apenas inicio uma conversa.
Como eu produzo tanto lixo? Esta pergunta é essencial, ela pode ser o ponto de partida para entendermos o funcionamento da moderna sociedade de consumo; olhar o seu lado feio, o lixo amontoado, pode surtir um efeito diferente daquele de quando olhamos uma vitrine no shopping. Estaremos olhando para o avesso da vitrine, para a sua sombra, para a sombra deste tipo de sociedade e, na sombra, talvez possamos enxergar alguma luz.Fiat lux, faça-se a luz: "Eureca! (descobri!), o lixo que produzo vem do meu consumo".
E daí, vou me chicotear, punindo-me após a descoberta a minha culpa? O que posso fazer? Será que consumo demais mesmo? Calma, nós temos a nossa parte nas responsabilidades e não é pequena, mas também somos vítimas das engrenagens da sociedade de consumo. Então, em primeiro lugar, precisamos compreender o seu funcionamento. Tem muita gente estudando-a. Eu destaco Annie Leonard, que faz um bom trabalho para compreender os seus malefícios. Sugiro uma visita ao seu vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=Q3YqeDSfdfk) e a leitura do seu livro: The Story of Stuff (A História das Coisas - Editora Zahar). Só o vídeo já ajuda bem. Também indico a leitura de dois artigos meus: Consumo Responsável para a Sustentabilidade e a Cidadania (http://zildo-gallo.blogspot.com.br/2014/11/consumo-responsavel-para.html) eConsumo Sustentável ou Sociedade Sustentável: um Debate Necessário (http://zildo-gallo.blogspot.com.br/2014/12/consumo-sustentavel-ou-sociedade.html).
Para o leitor que quiser se aprofundar e buscar as primeiras críticas à sociedade de consumo, sugiro a leitura de Herbert Marcuse. Nas suas principais obras, Eros e Civilização e O Homem unidimensional  Ideologia da Sociedade Avançada ele faz uma crítica à sociedade tecnológica.  Ele, nos idos do anos sessenta do século passado, chegou a reconhecer que subestimou a capacidade do sistema, em desenvolver formas de controle social cada vez mais eficazes, com a produção cada vez maior de bens supérfluos, para redirecionar as necessidades de prazer e satisfação das pessoas. Para ele a sociedade industrial contemporânea impõe uma racionalidade tecnológica de dominação e de controle da consciência humana e ela não é livre, pois age como um autômato, buscando a satisfação de necessidades falsas e tornando-se conformista. Imaginem se ele estivesse vivo agora, na segunda década do século XXI, observando a orgia consumista e seus consumidores domesticados...
Feitas todas estas considerações, pretendo aqui neste artigo abordar um aspecto apenas, contudo, um aspecto extremamente relevante: o de como estamos sendo treinados para sermos consumidores desde pequenos, desde muito pequenos. Trata-se da tal capacidade do sistema para desenvolver meios para redirecionar ou criar necessidades novas de consumo. A propaganda e o marketing são as principais ferramentas para isso.
A educação vem do berço, diz o dito popular; o Sistema Empresarial compreendeu isto há um bom tempo e agiu bem rápido. Nunca antes a propaganda fez tanto apelo ao público infantil como agora, trata-se de um alvo fácil, pois a criança está em formação e ainda não desenvolveu o espírito crítico e o conjunto de valores necessários a sua vida em sociedade.
Peguemos apenas o caso da indústria de brinquedos. A de alimentos (lembram-se do "Danoninho vale por um bifinho"?), de bebidas e da moda também fazem apelos constantes ao público infantil. Na indústria de brinquedos a programação é mais ostensiva e eu me arrisco a afirmar, beira à violência, pois ela repercutirá no futuro na formação de consumidores adestrados para as demais indústrias; ela está prestando um serviço a todas elas, indistintamente. Um exemplo de brinquedo que serve para preparar consumidores adultos é o dos pseudocomputadores, que possuem músicas,  joguinhos, que contam histórias etc.
Tais "computadores" preparam, antecipadmente, os futuros consumidores da indústria da informática, que rotineiramente abusa da obsolescência programada, lançando praticamente todos os anos novos produtos e tornando os anteriores "superados". Na verdade, ela cria consumidores que nem chegam a usar totalmente a capacidade dos modelos antigos de computadores e já migram para os novos, numa insana corrida em busca de alguma eficiência a mais; mudam de  equipamentos como quem troca de roupa de acordo com a moda, que também cria um tipo de obsolescência programada todos os anos. Tanto a produção de resíduos eletrônicos quanto a da indústria da moda é absurdamente alta e a gestão dos resíduos de ambas é muito difícil.
Voltemos à indústria de brinquedos. Para exemplificar bem a sua atuação, entre um montante considerável de exemplos, são muitos, pegarei um que considero gritante. Trata-se da boneca conhecida como Baby Alive. É uma boneca que busca a imitação da realidade. Ela fala, se mexe e se alimenta como um bebê de verdade, inclusive suja a fralda. Até aí a situação pode não parece tão anormal. A anormalidade está nos complementos que a acompanham, que induzem comportamentos indesejáveis do ponto de vista de uma sociedade que se pretende saudável. Na verdade eles vão na contramão dessa sociedade almejada: não consumista, produtora de pouco resíduo, que respeita a natureza, que privilegia o consumo de produtos naturais, que estimula a criatividade etc.
Baby Alive é uma boneca cara, muitas famílias não podem ter acesso a ela. Seus complementos também são muito caros e dois deles, além de caros, vão no sentido contrário do que imaginamos para uma sociedade minimamente sustentável, porque são descartáveis e contrários à ideia de uma vida saudável. Falo dos saquinhos de alimentos e das fraldas descartáveis.
Em termos de alimentação, sabemos hoje que ela tem que ser a menos processada (industrializada) possível, privilegiando os produtos in natura e, de preferência, os oriundos da agricultura orgânica. Essa boneca ensina a consumir alimentos fornecidos em embalagens herméticas, imitando as das famosas sopas rápidas, que, depois de abertas vão para o lixo, virando resíduos. O mais grave é que cada saquinho é usado uma única vez, com o seu conteúdo sendo misturado na água, produzindo uma papinha, que é servida na boca da boneca; quando os saquinhos acabam, novos saquinhos podem ser adquiridos mediante retribuição financeira, evidentemente (não são baratos). Assim, três condutas são estimuladas precocemente no imaginário da criança: 1) consumo de alimentos muito processados, de preparo fácil e de consumo rápido, conduta bem adequada a uma parte significativa da indústria alimentícia, 2)  geração e descarte rápido de resíduos do consumo, introduzindo, de forma sutil e bem cedo, uma cultura do descarte rápido; 3) consumismo, através prática repetitiva de abastecer-se dos produtos toda vez que eles acabam.
As façanhas da boneca não param por aí. Após a ingestão da papinha, ela é eliminada por um orifício que imita o anus e, assim, suja a fralda. A criança tira a fralda suja e a descarta, limpa a boneca e coloca uma fralda limpa. As fraldas também se acabam e novas necessitam ser adquiridas. Os estímulos ao descarte, produção de lixo, e ao consumismo repetem-se toda vez que a criança brinca com a boneca.
Aqui eu deixo uma pergunta aos educadores e aos psicólogos: um brinquedo tão realista não exerceria um papel inibidor da criatividade da criança, no sentido de que ela pode usar menos a imaginação quando brinca? Deixo a resposta desta questão a esses profissionais e me firmo na questão que já considero grave: a indústria de brinquedos tem contribuído para o desenvolvimento de consumidores compulsivos.
Todavia, gostaria de me lembrar dos meus tempos de menino, quando não havia esta abundância de oferta de brinquedos, principalmente do tipo Baby Alive, que se fazem acompanhar de vários complementos. Eles eram mais simples e, além disso, lembro-me de que fabricávamos os nossos próprios brinquedos, como os carrinhos de rolimã, as pernas de pau, as pipas, entre outros. Também me recordo que as brincadeiras eram na sua maioria coletivas e aconteciam nas ruas, nos campinhos, nos parques etc. Eram muito diferentes dos joguinhos dos videogames que têm contribuído para o desenvolvimento de um sedentarismo infanto-juvenil.
Não, pretendo com o que escrevi, demonizar o tempo presente e tecer loas aos tempos idos, mas apenas chamar a atenção dos consumidores para os mecanismos que o mercado usa para nos apanhar, para nos enredar nas teias do consumo ostensivo e, em grande escala, supérfluo. Às vezes, somos confrontados com o nosso consumismo e nos assustamos. Um exemplo: quando mudamos de residência e começamos a encaixotar os nossos pertences, nos defrontamos com muitos objetos que pouco ou até nunca utilizamos. Não precisamos esperar as mudanças de residências, pois elas demoram para ocorrer, podemos começar agora, observando a compulsão pelo consumo no nosso dia-a-dia.
Para concluir este artigo sugiro que nos lembremos dos três erres propostos pela gestão de resíduos: reduzir, reusar e reciclar. Todo mundo já conhece. Acrescento outro erre:repensar. Há que se repensar o consumo, pois ele assumiu um caráter patológico, trata-se de uma doença social, que está poluindo o planeta, devorando os seus recursos naturais e alienando as pessoas, que chegam a colocá-lo como objetivo de vida, passando a viver para consumir, quando deveriam apenas consumir para viver. Repensemos!

O cinema e as suas salas fechadas em Americana/SP



O município de Americana/SP até a década de oitenta do século passado ainda tinha salas de cinema. Até os anos setenta a cidade chegou a ter três salas: Cine Brasil, Cine Cacique e Cine Comendador. Essas salas tiveram o mesmo destino que as milhares espalhadas pelo Brasil: foram fechadas e tornaram-se casas de comércio ou igrejas. É corrente a justificativa de que o vídeo cassete e logo a seguir o DVD contribuíram para tal fenômeno. Não pretendo discutir as causas, mas lembrar da importância das salas de cinema da cidade de Americana, pelo menos para mim, onde passei a maior parte da minha infância, da minha adolescência e onde habitei até os meus trinta anos de idade.
Depois desse fenômeno arrasador, as salas de cinema começaram a voltar, aos poucos, através dos shoppings centers nas cidades médias e grandes. Nas cidades pequenas elas não foram reabertas, pois elas não têm shoppings de grande porte. Apesar de ser uma cidade de médio porte, Americana não dispõe ainda de salas de projeção, uma pena...
Ir ao cinema na minha infância e na minha adolescência era um ato corriqueiro. Tornei-me um cinéfilo desde pequeno. Na minha infância frequentava as matinês aos domingos à tarde. Era um acontecimento, pois não se tratava apenas de ver um filme. Outras coisas aconteciam nos cinemas e uma delas era bastante produtiva do ponto de vista cultural e social. Tratava-se da troca de gibis. Naquela época líamos muitos gibis e adquirimos o hábito saudável de trocar os já lidos com os amigos das matinês. Todos nós levávamos embaixo dos braços um punhado deles para troca. Não havia dinheiro nesse tipo de negócio. Estabelecíamos alguns parâmetros como o de que um álbum valia dois gibis menores, por exemplo. Hoje a sociologia chama isso de troca justa ou comércio justo. Éramos politicamente corretos e nem suspeitávamos disso.
Quando cresci, não trocava mais gibis nas matinês, mas continuei frequentando os três cinemas, dessa vez no período noturno, religiosamente. Como os cinemas não passavam filmes repetidos, acabava vendo três filmes por semana. Perdi as contas dos filmes que assisti. Não tinha gênero preferido, gostava de todos, comédias, dramas, terror, faroeste, policial, animação, musical etc. Os cinemas eram muito frequentados e a vontade de ver os filmes era tanta que chegávamos a falsificar a data de nascimento na carteira estudantil para assistirmos aos filmes proibidos a menores de dezoito anos, confesso que o fiz.
Com o surgimento do vídeo cassete, ver filmes ficou mais barato e mais simples, mas, asseguro não tem o mesmo encanto do cinema e digo mais, não tem o mesmo alcance cultural e social. Ir ao cinema contribuía para o desenvolvimento de uma saudável sociabilidade, pois enquanto esperávamos a abertura das portas para o início da sessão, encontrávamos velhos conhecidos e jogávamos conversa fora; tudo era muito agradável e tinha muita magia nisso. Aquelas antigas salas eram muito diferentes das salas dos shoppings. A sala de espera já era um acontecimento sociocultural. Pode ser que o fechamento das salas tenha contribuído, junto com muitas outras causas, é lógico, para o avanço do individualismo na nossa sociedade. É uma questão a ser verificada.
Nem tudo ficou ruim em Americana, pelo menos o Cine Brasil não virou comércio e nem igreja, pois se transformou num teatro, num bom teatro, mas a cidade continua precisando de um cinema. Será que só eu penso assim, eu que não moro nessa cidade há anos? Em Campinas, onde moro, tem muitas salas e recentemente foram fechadas quatro salas do Cine Topázio no Shopping Prado. O Cine Topázio era diferente, pois não exibia, como a maioria dos outros, um monte de filmes americanos. Ele exibia filmes de muitas nacionalidades, com destaque para os franceses. Muitos lamentaram o seu fechamento, inclusive eu. Sou daqueles que acredita que o cinema pode contribuir para a formação cultural dos povos.
Na minha infância, além dos três cinemas, ainda contávamos com o Cineminha do Senhor Pagni. O Senhor Pagni era um cinéfilo e um cinegrafista amador. Lembro-me que ele filmava os acontecimentos da primeira gestão do Prefeito Dr. Valdemar Tebaldi (1977 - 1982), como as inaugurações de obras, por exemplo. Ele tinha na sua casa, no cruzamento entre as Ruas Gonçalves Dias e Vital Brasil, um salão grande, onde colocou vários bancos compridos de madeira e onde projetava filmes para o público infanto-juvenil, cobrando preços simbólicos, preços que as crianças pobres podiam pagar. Era um serviço social de inestimável valor. Recordo-me de ter visto os filmes dos Três Patetas, do Gordo e Magro, Tarzan, Zorro, Mazzaropi e muitos faroestes. Inesquecível Senhor Pagni...
Será que Americana espera por um shopping de tamanho grande para poder ter salas de cinema, como aconteceu com o município vizinho, Santa bárbara D'Oeste? Aqui vai uma sugestão. Parece-me que o velho Cine Brasil era do Sr. Abdo Najar, ex-prefeito da cidade e o seu filho, Omar Najar, é o atual prefeito. A Prefeitura Municipal poderia tomar a frente, depois de sanear as contas públicas, é óbvio, e providenciar (pode ser em parceria com o setor privado) a construção de salas de cinema. Do ponto de vista cultural, a meu ver, seria um ganho expressivo para o município.

Memórias ferroviárias


Em 9 de setembro de 2010, a cidade de Americana/SP tomou um grande susto aí por volta das 23 horas. Foi uma tragédia: um trem de carga com  quatro locomotivas e 77 vagões carregados de milho, soja e açúcar, que seguia rumo ao porto de Santos, atropelou um ônibus urbano da Viação VCA que atravessava a passagem de nível, o que resultou em nove mortos e vários feridos.
Tal fato nunca me saiu da cabeça, ainda que não estivesse próximo ao evento e, além disso, não conhecesse nenhuma das vítimas. Lembro-me que se travou uma discussão sobre os possíveis culpados, como sói acontecer nesses momentos. Ainda me lembro que surgiram conjecturas sobre uma tarefa hercúlea de mudar o traçado da ferrovia, retirando-a do centro da cidade. A ferrovia, creio, mesmo antes do acidente, parecia incomodar a população americanense no sentido de ela se apresentar como um estorvo, atrapalhando o bom andamento do trânsito local. Tais conversas nem de longe me atingiram, pois outras questões mais sutis se acercaram do meu espírito. Naquele momento cheguei a pensar em escrever algo a respeito, mas só agora sinto-me em condições de fazê-lo de forma mais amadurecida. É o que passo a fazer agora.
Se o acidente tivesse acontecido há três ou quatro décadas atrás, as polêmicas teriam sido um pouco diferentes, pois a relação da cidade com a ferrovia era muito diferente da atual. Trata-se, na verdade, de uma relação bem antiga. A cidade cresceu e evoluiu a partir da inauguração da estação ferroviária de Santa Bárbara, na Vila dos Americanos, cujo nome deriva da ocupação das terras do entorno por imigrantes do sul dos Estados Unidos. A efeméride deu-se na segunda metade do século XIX, mais precisamente em 27 de agosto de 1875, evento que contou a presença do Imperador Dom Pedro II.
Durante muito tempo a estação ferroviária foi a porta de entrada e de saída da cidade. Para mim foi assim, pois nela desembarquei com minha família, vindo da minha cidade natal, Borborema/SP. Os poucos móveis e objetos também chegaram pela ferrovia, encaixotados e transportados num vagão cargueiro. Corria o ano de 1963 e eu tinha sete anos de idade. Voltei à Borborema apenas uma vez a passeio e, com a distância e o passar do tempo, as imagens da minha terra de origem esmaeceram-se feito fotografias velhas. Muitas outras crianças também entraram na cidade pelos portões da velha estação, naqueles tempos de acentuado êxodo rural, incluindo meus primos e primas. Americana era, à época, um tipo de Eldorado do emprego. Ela passava essa imagem e minha família acreditou nela.
Americana teve durante muito tempo uma sólida relação com a ferrovia e com a sua velha estação. Além do transporte de pessoas, ela transportava cargas também. No meu primeiro emprego, na tecelagem pertencente às famílias Feltrin e Cia (a empresa não existe mais), eu e os demais trabalhadores do setor de expedição tínhamos uma relação constante com a FEPASA, pois boa parte das remessas de tecidos era feita através dessa companhia ferroviária. Durante um período eu fiquei responsável pela relação da Feltrin com compradores lojistas (chamávamos isso de varejo) e muitos deles preferiam que enviássemos as mercadorias pelo modal ferroviário, entre eles alguns lojistas de Borborema, minha cidade natal; foi durante um bom tempo o único contato com as minhas raízes.
Os jovens da cidade tinham uma relação muito forte com a velha estação. Ela era o ponto de partida para as cidades vizinhas. Costumávamos viajar em grupos. Íamos aos cinemas e ao Teatro Castro Mendes em Campinas. Tínhamos que ir à primeira sessão dos filmes, pois corríamos o risco de perder o último trem (o nosso "Trem das Onze", como no caso de Adoniram Barbosa, lembram?) e, nesse caso, dormiríamos na estação. Quanto ao teatro, ainda trago na memória a peça "Um grito parado no ar", de Gianfrancesco Guarnieri; se não me engano o ano era 1975, um século depois da inauguração da estação de Santa Bárbara. Chegamos à estação de Campinas e pegamos um túnel estreito e comprido que passava embaixo da ferrovia e saímos pertinho do teatro e ao fim da peça fizemos o caminho de volta pelo mesmo túnel rumo à estação. Toda vez era assim. Os cinemas ficavam um pouco mais distantes e não havia nenhum túnel, mas dava para chegar até eles após alguns minutos de caminhada.
Nos anos setenta, nos fins de semana, virou moda entre boa parte da juventude local frequentar o Parque Fonte Sonia em Valinhos, cidade vizinha de Campinas. O meio de transporte era o trem. Todo domingo levas de jovens chegavam bem cedo à estação de Americana e retornavam ao cair da noite. Eu tenho uma prima que conheceu o seu marido na Fonte Sonia; estão juntos até hoje, deve ser o encantamento das águas. Eu nunca fiz parte dos grupos frequentadores da Fonte Sonia. Lembro-me também de jovens pegando o trem rumo a Araras para visitarem o zoológico da cidade.
O trem não servia só para nos levar ao lazer, servia também como transporte escolar. Era intenso o tráfego de estudantes entre Americana e as cidades vizinhas e vice-versa. Muitos trabalhadores também se movimentavam pela ferrovia diariamente. Meu vínculo com esse modal de transporte foi bastante sólido, meu pai trabalhou durante muitos anos como operário de uma empreiteira que prestava serviços de manutenção à FEPASA. Nessa época a minha família conseguia viajar de graça, o que era bem legal.
A estação era cheia de vida, por ela circulavam pessoas e parte da riqueza produzida no município. Foi assim desde a sua fundação, quando os trens transportavam as melancias da variedade "Cascavel da Geórgia", plantadas e colhidas pelos imigrantes americanos. O trem era um meio de transporte rápido e isso era necessário para uma mercadoria perecível como a melancia.
A cidade cresceu a partir da sua velha estação. O seu fechamento pode ter significado uma perda material; talvez não tenha sido muito grande. Nos seus últimos anos de funcionamento os serviços estavam precários e, aos poucos, o  modal rodoviário foi ocupando o seu espaço. Quando a estação enfim encerrou as suas atividades, o modal ferroviário encontrava-se em frangalhos, vivendo uma situação de claro abandono. Contudo, a maior perda, no meu modo de ver e de sentir, principalmente, foi de caráter imaterial. Tendo a dizer: espiritual, inclusive. Ela tem a ver com sentimentos, com histórias, com lembranças, muitas lembranças, boas lembranças... A estação, os trens e os passageiros (não éramos tão passageiros; frequentadores fica melhor) formavam um conjunto sólido de relações e o que levamos desta vida são as relações, tanto as boas e quanto as más, são elas que nos tornam humanos. Por sua vez, a matéria fenece.
A estação, os trens, os maquinistas, os bilheteiros, os vendedores de revistas e de lanches e os passageiros, é óbvio, formavam um belo conjunto, um conjunto em movimento, vivo, todos os dias... Hoje, as estações deixaram de ser estações. Algumas viraram centros culturais enquanto outras se deterioram, entregues às ações do tempo e o tempo é implacável. Os trens, por sua vez, só transportam, na sua maioria, commodities produzidas pelo agronegócio. O porto de Santos é o destino final de cada um deles. A Região Metropolitana de Campinas, da qual Americana faz parte, apenas assiste à passagem diuturna das composições, com suas dezenas de vagões e suas potentes locomotivas. A ferrovia tornou-se um corpo estranho à urbe. Não é de estranhar o surgimento de uma certa rejeição em relação a elas no meio urbano, apesar do fato de elas retirarem muitos caminhões das rodovias por conta da sua tamanha capacidade de carga. Apesar de tudo, elas são, do ponto de vista ambiental, uma opção de transporte de carga muito melhor que a rodoviária. Mas, onde ficam os seres humanos?

O fast food nosso de cada dia



Na minha infância e na minha adolescência, nos anos sessenta e setenta, na cidade de Americana, no Estado de São Paulo, não existia a abundância de fast foods que agora vejo. Havia algumas lanchonetes, as quais frequentávamos esporadicamente. O hábito de comer fora rotineiramente não era tão comum como agora, por isso não havia também a abundância de restaurantes e pizzarias da atualidade. Comer fora deixou de ser um luxo ao qual nos permitíamos vez ou outra e, agora, rotinizou-se.
Quando jovem, nos meus tempos de colegial, eu tinha uma rotina diária como muitos outros. Trabalhava o durante o dia, estudava à noite e fazia as refeições em casa. Muitos outros levavam marmitas ao trabalho, isso também era muito comum. Poucas empresas tinham restaurantes industriais naquela época. A nossa dieta baseava-se na alimentação caseira. Nos fins de semana, quando saíamos, às vezes, pelo menos no meu caso, íamos a uma lanchonete comer sanduíches ou pizzas, acompanhados de refrigerantes, na maioria das vezes. Nem o consumo de refrigerantes era tão rotineiro naqueles tempos como é agora.
O Bié Lanches, que ficava na rua Fernando Camargo, no centro da cidade foi uma referência importante, pois era bastante criativo na produção de lanches; se não me engano foi ele quem deu vida ao "Lobo Mau", um lanche de tamanho grande, o nome cabia-lhe perfeitamente. Também existiam alguns bares onde se podia comer baurus, como o Bar Casa Verde, Bar da Escada, Bar do Crespo, Bar do Filiputti, Bar Bacan, entre vários outros. Os hambúrgueres foram chegando aos poucos nas lanchonetes, não eram tão comuns.
Não havia os trailers e os carrinhos de cachorros quentes e hambúrgueres, que fazem parte da paisagem urbana da atualidade. Lembro-me que o primeiro trailer de lanches, acredito que tenha sido o primeiro, foi o Baitakão, que estacionou na região central da cidade, próximo de onde funcionava o supermercado Batajão, e que fazia um cachorro quente enorme e cheio de recheio, conhecido como Baitakão, é óbvio. Foi a grande novidade em termos de fast food nos anos setenta em Americana.
São lembranças que considero agradáveis. Não pretendo ficar recordando o meu passado gastronômico, mas quero introduzir aqui uma reflexão sobre o fast food dos nossos dias enquanto incentivador de formas de consumo predatórias do ponto de vista ambiental e também da saúde.
A alimentação rápida dos dias de hoje nos chegou como imitação dos Estados Unidos e rapidamente foi ocupando espaço no meio urbano. Não dá para precisar muito a data em que isso, que era marginal, começou a ganhar corpo. Podemos localizar tal fenômeno mais ou menos a partir do final segunda metade dos anos setenta, com uma aceleração a partir dos anos oitenta e noventa. Nesse período aconteceram alguns eventos que podem ter contribuído: introdução do forno de micro-ondas; expansão rápida dos salgadinhos de saquinhos, tipo chips; crescimento do setor de alimentos congelados e; crescimento contínuo e firme da alimentação fora de casa.
No quesito crescimento da alimentação fora de casa podemos localizar duas situações que têm um caráter positivo: o surgimento de restaurantes do tipo self service, que dão ao cliente a possibilidade de escolha, de montar o seu próprio prato, e a expansão dos restaurantes que fornecem os chamados pratos feitos, que pretendem ser o mais completos possíveis do ponto de vista nutricional. Também ocorreu a expansão das lanchonetes, das pizzarias e dos carrinhos e trailers de lanches. Neste último caso o problema está mais na constância do uso que cada consumidor faz desses serviços de alimentação.
Vamos por partes, analisando em primeiro lugar a introdução do micro ondas e dos congelados, ambos são irmãos siameses. Com os congelados diminuiu-se o tempo de cocção dos alimentos, mas se aumentou, em contrapartida, o consumo de massas, como as lasanhas, por exemplo, em detrimento do nosso tradicional arroz com feijão. O abuso das massas, já é sabido, pode fazer mal à saúde. Digamos que o problema está na constância do uso. Do ponto de vista ambiental, com a expansão do fast food doméstico, tivemos o aumento da produção de resíduos sólidos, no caso as embalagens descartáveis. Aquele hábito antigo, que veio dos imigrantes italianos, de consumir massas nos fins de semana, as famosas macarronadas, estendeu-se para os outros dias da semana. Haja calorias!
A expansão dos salgadinhos de saquinhos, os chips, por sua vez, é mais complicada. É difícil entendê-los como alimentos, inclusive, dada a sua artificialidade. Gorduras saturadas e excesso de sal caracterizam muitos deles. As embalagens, por sua vez, são do tipo totalmente descartáveis, impedindo a reciclagem, o que do ponto de vista ambiental é por demais incorreto. Os apelos publicitários desses produtos são minimamente desonestos, pois atingem em cheio o público infantil. A introdução de brindes dentro dos saquinhos é um forte chamariz para essa fatia do mercado. Lembram-se dos tazos, aqueles disquinhos colecionáveis que se tornaram verdadeira febre nos anos noventa? Os brindes contribuíram para introduzir o hábito de consumir isso que a indústria teima em chamar de alimento. São "alimentos" perniciosos do ponto de vista da saúde e do meio ambiente. Muitos os chamam de "salgadinho de isopor", não é por simples acaso.
A expansão do setor de lanches rápidos e das pizzarias pode apresentar riscos a partir da constância do consumo por cada cliente. Ocorre que muitas famílias acabaram perdendo o controle do espaço temporal entre um consumo e outro, principalmente em relação às crianças. O apelo das pizzas, dos lanches e das frituras acaba atingindo mais o público infantil, que não tem informações e maturidade suficientes para estabelecer críticas ao que está consumindo. Muitas vezes, em relação a esses alimentos, acontece um forte embate entre pais e filhos. "O meu amigo pode, por que eu não?" É uma questão difícil para pais e educadores. Como dosar o consumo dessas saborosas guloseimas? Além de tudo isso, tem um agravante: junto com as pizzas, os salgados e os lanches, vêm os refrigerantes, que aumentam o consumo de açúcar.
Em relação aos lanches rápidos, nas cidades médias e grandes, a situação ganhou um complicador nos tempos atuais: a entrada de uma grande rede internacional de fast food, no caso o McDonald's. É o caso de Americana. A princípio ele se encaixaria na situação do tipo de alimento que se pode fazer uso esporádico. Até aí tudo bem. O problema está nos esforços que ele faz para aumentar o consumo dos seus produtos e para a fidelização da sua clientela. A principal vítima desses esforços é o público infantil, de novo... Além do excesso de embalagens (aquelas caixinhas chamativas pelas suas impressões coloridas), ele costuma oferecer brindes às crianças, como no caso dos chips. Além dos brindes, é comum nas lojas maiores da rede a presença de playgrounds para atrair as crianças. Assim, são criadas as condições para a produção excessiva de resíduos, que é incorreta do ponto de vista ambiental, e a possibilidade do surgimento de problemas de saúde, pelo excesso de consumo de um alimento pouco saudável.
Sobre o McDonald's, sugiro que vejam o filme Super Size Me - A Dieta do Palhaço. Ele se encontra disponível no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=p5VGZVawW0c). Trata-se de um documentário de 2004, produzido, dirigido e protagonizado por Morgan Spurlock, um cineasta americano. No filme, Spurlock segue uma dieta de 30 dias onde apenas consome produtos do McDonald's. Durante a gravação, ele comia nas lojas da rede três vezes ao dia, consumindo em média 5000 kcal por dia, um exagero, o equivalente a seis  Big Macs.
Antes da sua experiência, Spurlock, comia uma dieta variada. Era saudável, magro, e, com 1,85 m de altura, pesava 84,1 kg. Trinta dias depois, aumentou o seu peso em 11,1 kg, saindo de uma faixa de peso considerada saudável para entrar numa situação de sobrepeso. Também experimentou mudanças de humor, disfunção sexual, e dano ao fígado. Depois das filmagens, ele precisou de quatorze meses para eliminar o peso adquirido.Três médicos que o consultaram ficaram surpresos com o elevado grau de deterioração da sua saúde. Um deles chegou a afirmar que era irreversível o dano causado ao seu fígado. Durante o período das filmagens, Spurlock comeu mais refeições no McDonald's do que um nutricionista recomendaria comer em oito anos. Isso significa que comer alimentos desse tipo só pode acontecer bem de vez em quando, conforme os nutricionistas
O que motivou Spurlock a fazer a investigação, usando a si mesmo como cobaia, foi o crescimento da obesidade nos Estados Unidos, que chegou a ser considerada pela saúde pública americana como "epidemia". Também contribuiu para isso a demanda judicial contra o McDonald's em nome de duas meninas com sobrepeso, que alegaram que  a obesidade era resultante do consumo de alimentos da rede. Parece que o consumo de comida rápida, do ponto de vista psicológico, pode ter um aspecto viciante; é algo a ser verificado.
O que está acontecendo nos Estados Unidos também está acontecendo no Brasil, a obesidade tem aumentado significativamente, com destaque para a obesidade infantil, com os malefícios que a acompanham, como a hipertensão e o diabetes mellitus. Trata-se de um problema de saúde pública. O melhor remédio para essa "epidemia" não é a cirurgia bariátrica, usada em casos extremos, mas a reeducação alimentar. Ela tem que se dar no seio da família, nas escolas, nas repartições de saúde e nos meios de comunicação, esses mesmos meios que propagam o tempo todo as delícias do fast food, não tem um caminho mais curto.
Apesar de tudo, o mundo não está definitivamente perdido. Tem muita gente atenta à questão da alimentação em todos os cantos do planeta. Trago aqui um ótimo exemplo. Em 1986 o jornalista italiano Carlo Petrini, com a ideia de promover a boa comida, fundou a organização Slow Food, cujo significado é "comida lenta", em contraposição ao fast food, "comida rápida". A ideia é aumentar o tempo gasto com a alimentação, com o objetivo de aumentar o prazer no ato de se alimentar, como nos velhos tempos, quando a família sentava-se à mesa, seguindo rituais antigos da comensalidade.
A filosofia da Slow Food (http://www.slowfoodbrasil.com/) resume-se em defender a informação ao consumidor, proteger as tradições alimentares, defender o cultivo e o processamento de alimentos herdados da boa tradição e defender espécies vegetais e animais, domésticas e selvagens. Para ela, o alimento deve ser bom, limpo e justo, o que significa: saboroso, nutritivo, respeitoso ao meio ambiente e com preços justos, tanto para os produtores como para os consumidores.
A rede de membros da Slow Food já reúne mais de 100 mil associados no mundo. Ela se organiza em grupos locais, que, periodicamente, organizam atividades como oficinas de educação alimentar, palestras, degustações, cursos, jantares e até turismo gastronômico. Ela costuma defender a produção e o consumo locais, o uso de alimentos da tradição e a compra direta dos produtores. Tudo isso pode tornar os alimentos mais baratos, pois encurta a cadeia produção/consumo, pela eliminação dos atravessadores. Além disso, a Slow Food questiona o custo ambiental dos alimentos produzidos em larga escala (agronegócio) e os impactos sobre a saúde do consumo de alimentos excessivamente processados pela indústria.
Reeducação alimentar é a palavra-chave do momento nutricional da humanidade. Lembro-me que na minhas infância e adolescência, a obesidade era bem pequena; uma ou outra pessoa era gorda e, no meio das crianças, era bem rara. O consumo eventual de lanches, pizzas e refrigerantes não produzia os estragos que o fast food produz hoje. A frequência esporádica, era esporádica mesmo, às lanchonetes e bares não produzia os estragos ora verificados. Além disso, não existiam os "salgadinhos de isopor", as massas congeladas do fast food doméstico e a abundância de refrigerantes e outras bebidas pouco saudáveis. Saborear lanches no Bié e nos bares da época significava uma quebra de rotina, apenas uma quebra de rotina, não era a rotina. Essa quebra da rotina era agradável e não prejudicava a saúde, pois a sua esporadicidade garantia isso .
Bom apetite!

Cadê o córrego do Gallo na vila Gallo?



O título deste artigo não é nenhuma brincadeira, é sério. Havia um córrego do Gallo na vila Gallo no município de Americana/SP. É Gallo com dois eles mesmo. Não se trata do macho das galinhas, que se escreve com um ele só, aquela ave que canta no alvorecer de cada dia. Este Gallo que é grafado como o meu sobrenome significa gaulês (originário da Gália). Pelo jeito, sou um descendente de Asterix e de Obelix, como todos os demais cidadãos portadores do  mesmo sobrenome.
Os americanenses mais novos talvez nem imaginem onde se localiza o córrego em questão, mas, com certeza sabem onde fica a Avenida Prefeito Abdo Najar. O córrego fica em baixo dessa avenida. A nascente e todo o córrego estão soterrados. Estranho? Não, nem um pouco. Era e ainda é, em muitos lugares, uma prática comum a canalização de córregos. Trata-se de um atentado à natureza, um dos muitos atentados praticados contra ela no meio urbano. Ali, na avenida, deveria correr um regato com a sua mata ciliar, o que poderia ser uma bela imagem do ponto de vista paisagístico e as cidades carecem de áreas verdes e de belas paisagens para suavizarem a brutalidade da selva de concreto, Americana não foge ao caso.
O cronista carioca Stanislaw Ponte Preta escreveu a obra Febeapá (Festival de besteiras que assola o país), que foi muito lida nos anos setenta, nos tempos da minha adolescência. Toda cidade precisaria de um Stanislaw Ponte Preta para registrar as besteiras praticadas pela gestão municipal, com o apoio e o aplauso de muitos munícipes. A canalização dos córregos está no rol das besteiras de muitas cidades. O município de São Paulo é o campeão nesse tipo de asneira. Quem sabe que o Vale do Anhangabaú em São Paulo era o vale do rio Anhangabaú? Sobre esse corpo d'água passa uma larga avenida. Essa situação se repete em muitas cidades do Brasil. Não se trata, todavia, de uma exclusividade brasileira; muitos outros países também necessitam de cronistas que registrem os seus febeapás.
Por que se canalizaram os córregos? Por dois motivos: 1) com o asfaltamento das ruas, as águas das chuvas corriam rapidamente para os córregos e acabavam provocando inundações e; 2) o despejo do esgoto in natura nos corpos d'água provocavam mal cheiro na vizinhança dos ribeirões, também se alegava questões de saúde pública. São duas saídas bem complicadas. As canalizações dificilmente resolvem as inundações, pois a melhor forma de combatê-las é a pela existência de solo descoberto ou, melhor, coberto apenas com vegetação, em abundância, para possibilitar a infiltração das águas no subsolo. Mas, onde fica a especulação imobiliária, que disputa cada palmo de chão para transformá-lo em dinheiro? Por sua vez, a melhor forma de eliminar o mal cheiro do esgoto e os possíveis riscos à saúde é pelo seu tratamento, desconheço outra. Em relação ao córrego do Gallo, parece-me que os dois argumentos foram usados à época.
Em todas as cidades os argumentos são os mesmos. Hoje, vários países já estão fazendo um tipo de engenharia reversa, estão descobrindo os rios canalizados, retirando sua capas de concreto, mas, no Brasil, isso ainda está longe de acontecer, quiçá um dia... As cidades cresceram em confronto com a natureza e poucas, muito poucas, respeitaram o meio ambiente no seu processo de expansão. Entretanto, esta é uma visão de hoje, pois até poucos anos atrás as questões ambientais não eram colocadas na ordem do dia, pois o que contava era o "progresso" e tudo que se colocasse contra ele era visto como atraso, como antiquado.

Hoje, passando pela Avenida Abdo Najar, que já está toda tomada por construções, parece difícil reverter a situação, talvez impossível. Registro este libelo com dois objetivos: 1) como advertência para outros futuros febeapás e; 2) como protesto pelo confinamento do ribeirão que homenageia a imensa família Gallo de Americana, parece-me que esta é a origem do seu nome, assim como do bairro.

O menino americano e a bola de capotão













Muitas vivências e fatos da nossa existência, por mais longínquos que estejam no tempo, sempre permanecem na memória. Permanecem porque carregam significados singulares, especiais. Muitos deles, caso analisemos rapidamente, podem parecer sem importância, mas, caso insistamos na observação, caso não "deixemos para lá", o que corriqueiramente costumamos fazer, sempre acabaremos por achar algum significado profundo escondido. A história que relato a seguir é um caso desses.
No final dos anos 60 do século passado, quando morava em Americana (SP), à rua Frederico Pollo, na Vila Jones, numa situação de muita pobreza e dificuldades econômicas concretas (existe dificuldade econômica não concreta?), eu e vários meninos da minha rua e das proximidades, que também enfrentavam situações parecidas, uns mais outros menos, vivenciamos durante algum tempo uma história inédita, até mesmo estranha, dada as nossas condições limitadas de vida e da percepção diminuta que tínhamos do mundo, pelo menos a minha era assim. Apesar da estranheza, a história era bem agradável, tanto que grudou nas paredes da minha memória.
Antes de narrar os acontecimentos pretéritos, que são bem curtos e singelos, acho conveniente descrever o cenário do enredo e, ao mesmo tempo, acrescentar algumas informações que, com o correr do tempo, fui adquirindo sobre a história de Americana, cidade na qual vivi a maior parte da minha infância, toda a adolescência e parte da idade adulta. São informações que considero importantes para a compreensão do sincrônico encadeamento dos fatos.
O nome do bairro, Vila Jones, homenageia uma das famílias de imigrantes americanos confederados, que começaram a se instalar, entre 1865 e 1885, nas terras próximas ao ribeirão Quilombo que, posteriormente, formarão o município de Americana. Os Jones são uma família com visibilidade e importância na história local. A senhora Judith Mac Knight Jones, esposa do Dr. James Roderick Jones (Jaime Jones, assim ele era chamado pelos brasileiros), além de ter no currículo o fato de ser tia de Rita Lee Jones, nossa eterna rainha do rock, também escreveu um livro importante, que resultou de uma grande pesquisa histórica, sobre a imigração e a instalação dos imigrantes confederados no Brasil do segundo império: Soldado Descansa! uma Epopeia Norte Americana sob os Céus do Brasil.
O cenário dos acontecimentos que vou narrar foi onde hoje funciona uma escola estadual, entre quatro ruas: Rua Washington Luis, Rua Florindo Cibin, Rua Martins Fontes e Rua Guilherme de Almeida. Neste quarteirão, nos anos 60 e 70, havia um campo de futebol, o Canto do Rio. Acredito que se chamava assim porque estava localizado perto da microbacia do Córrego Pyles, que ficava no sítio dos Jones. O nome do córrego, Pyles, também homenageia uma família de imigrantes americanos.
Quando eu me mudei para Americana com minha família, em 1963, o Canto do Rio estava vivendo um processo de deterioração. Antes, ele era bem cuidado e tinha, inclusive, em todo o lado que margeava a Rua Washington Luis, uma arquibancada construída com tijolos e concreto. Com o abandono, várias famílias começaram a saquear a arquibancada para, com os tijolos dali extraídos, ampliarem as suas residências; a arquibancada desapareceu em muito pouco tempo.
Apesar da degradação, o campo nunca deixou de ser usado enquanto tal, até que virasse uma escola. Que legal que tenha virado escola! Nos finais de semana ele era utilizado por um time que se formou a partir dos frequentadores do bar de um posto de gasolina na Avenida Campos Salles, o Servicentro Esso. Meu pai, Aristides, que trabalhava no posto, no seu primeiro emprego em Americana, também jogava no time, que era composto, na sua maioria, por operários das fábricas de tecidos da região, que, ao final da tarde, quando saíam do trabalho, paravam no bar, conhecido por todos como Bar do Posto, onde bebiam alguma coisa e jogavam conversa fora, antes de irem para sua casas. Tenho na memória alguns nomes de jogadores: Buzina, Piti, Viola e Japão. Lembro-me também que Piti era surdo-mudo e Japão era o borracheiro do posto. Guardei-os porque os achava engraçados, acho que é por isso, não sei, a memória é uma coisa muito estranha.
Durante os dias úteis da semana o Canto do Rio era das crianças. De manhã eu ia para a escola e à tarde rumava para o campo, onde encontrava outros meninos. Ficávamos esperando, conversando bobagens, até que aparecesse alguém com uma bola. Havia poucos meninos proprietários de bolas de futebol, eram os "donos da bola". E os donos de uma bola de capotão de tamanho oficial? Esses eram uma raridade, raridade mesmo. Uma bola Drible de couro, costurada à mão, de tamanho número cinco, grandona, era muito cara; naquela época ela era um desejo praticamente impossível de ser alcançado pela esmagadora maioria dos meninos do Canto do Rio.
Contudo, às vezes, os desejos mais difíceis podem ser atendidos, como num passe de mágica. Num dia, não me lembro de qual ano, eu e meus amigos esperávamos alguém com uma bola e eis que de repente, não mais que de repente (como no poema de Vinícius de Moraes), apareceu um menino que chegava acompanhado pelo pai. Ele era muito diferente dos meninos dali, comigo incluso, era alto, do tipo forte e tinha o rosto claro e rosado. Apresentou-se como Johnny, num português com sotaque engraçado, pelo menos eu achei engraçado. E, o que é mais importante: ele trazia consigo uma bola de capotão oficial, branquinha, lindona.
Johnny era americano e ficaria no Brasil por algum tempo. No tempo que ficou em Americana, ele virou o verdadeiro "dono da bola". Acredito que nenhum outro gringo tenha sido tão bem recebido e tão festejado como ele. Acredito que ele mesmo não saiba disso, com certeza. Brincamos muito com a bola de capotão do Johnny. Ele foi o primeiro americano que conheci pessoalmente. Conhecíamos os descendentes dos confederados, um americano legítimo como ele estava num outro nível e, ainda mais, ele tinha uma bola de capotão número cinco.
Um dia o Johnny foi embora e levou consigo a bola de capotão, nada mai justo. Um americano que gostava de futebol naquela época era uma raridade, a posse da bola era muito mais que merecida. Todavia, o mundo é sempre uma caixinha de surpresas.
Muitos anos mais tarde, quando trabalhava como professor no Departamento de Economia da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) foi que fiquei sabendo o nome completo do Johnny, John Cowart Dawsey. Ele foi professor da UNIMEP entre 1989 e 1996, conforme informa o seu Currículo Lattes. Eu, por minha vez, lecionei na universidade entre 1987 e 2006. Jung chama essas coincidências, que ele não considera assim, de sincronicidade.
Hoje, o Johnny (John Cowart Dawsey) é professor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e vejo, pelo seu Lattes, que ele é um pesquisador produtivo. Ele é uma espécie de "dono da bola" na sua área de conhecimento. Os comentários que ouço sobre ele são sempre abonadores Quanto ao futebol, tenho informações que ele continua gostando do esporte bretão como antes. Só que agora ele não é mais uma raridade, pois muitos americanos gostam de futebol, mas o menino Johnny foi um pioneiro nesta questão, isto ninguém tira dele.

PS.: A história é verdadeira, aconteceu mesmo. Resolvi transformá-la numa crônica, numa crônica sobre o futebol das crianças em tempos difíceis. A bola é um símbolo, um desejo, é um meio e, ao mesmo tempo um objetivo. Não é o jogador que atinge a meta (o gol), mas a bola chutada por ele. Por ser redonda, não sabemos onde começa e onde termina, o que é um enigma. Por ser redonda ela rola, se não rolasse, o futebol não seria possível. A posse de uma bola de qualidade era na minha infância uma forma de poder. Todavia, o poder tinha que ser exercido de forma democrática, porque não dá para jogar futebol sozinho. Esta é a beleza desse esporte: o "dono da bola" tem que dividir a bola para poder jogar.

O roubo da bola de capotão



Devia ser o ano de 1966, já faz muito tempo, é difícil precisar a data depois de tantos anos decorridos. Éramos um grupo de meninos, todos bem crianças mesmo, nem púberes éramos ainda. O que nos ligava eram as muitas brincadeiras de rua e o futebol, muitas vezes jogado nas ruas também. Para esse esporte improvisávamos bolas quando não as tínhamos, enchendo meias velhas com trapos, dando-lhes uma forma o mais arredondada possível.
O município de Americana (SP) era pequeno naquela época e, apesar de não muito distante do centro da cidade, o lugar onde morávamos poderia ser visto como periférico. Outra coisa que nos ligava era a pobreza, pois poucos escapavam dessa condição naquela vizinhança. Havia muitos meninos no nosso grupo, muitos mesmo, e, num dado momento, não sei exatamente porque e como, desejamos montar um time de futebol, para disputarmos partidas com outros times infantis que existiam na cidade. Achávamo-nos bons de bola o suficiente. Só precisávamos de uma boa bola de capotão.
Um desejo não atendido ou, melhor, impossibilitado de ser atendido, pode levar-nos a fazer coisas não recomendadas pela moral e os bons costumes. Na infância, quando a personalidade está em construção, quando a noção de certo e errado é ainda muito movediça, o "Diabo pode atentar", como diziam os mais velhos. Um dia ele chegou e atentou. Alguns garotos, às escondidas do restante do grupo, foram até o centro da cidade atrás de uma bola, mas só um deles teve a coragem de fazer o combinado. Ele dirigiu-se até a porta de uma loja de produtos esportivos e, quando notou que ninguém estava olhando, pegou uma bola que estava em exposição perto da porta e sumiu, sem que ninguém percebesse.
No mesmo dia ele apareceu no terreno onde brincávamos como uma bola velha, caindo aos pedaços, como costumeiramente fazíamos. Chegou todo orgulhoso, ostentando a bola de capotão de tamanho oficial, acho que era uma Drible; a cor, eu tenho certeza, era branca. Contou-nos o ocorrido e pediu segredo, acho que tinha receio de que seus pais soubessem. Foi assim que conseguimos a nossa bola, de uma forma nem um pouco convencional e lícita. Muito mais tarde é que fui compreender que o nosso silêncio colocou-nos como cúmplices. Este é um aprendizado mais refinado e eles vem com o tempo, com o amadurecimento.
Já tínhamos a bola, mas faltava o jogo de camisas. Quanto a esse objetivo, agimos coletivamente e fizemos uma campanha na vizinhança, pedindo ajuda a todos os nossos conhecidos e parentes, juntando um pouco aqui, um pouco ali. Deu certo, muitos contribuíram e conseguimos comprar o jogo de camisas na loja onde a bola foi roubada. Fizemos isso sem pensar. Talvez fosse a única loja que vendia jogos de camisas, talvez... não sei... Viramos um time, de fato. Adotamos como nome do time o nome do nosso bairro, se não me falha a memória, já se vão cinquenta anos.
O garoto que conseguiu a bola era o nosso melhor jogador, um craque mesmo, era o que eu achava. O tempo foi passando, passando e passou. O nosso time já não mais existia, tornei-me adolescente e cursava o ginásio. Nessa época, num dia qualquer, tomei um baita susto com uma notícia que me chegou, não me lembro exatamente como. Aquele nosso craque foi pego em flagrante furtando dinheiro do escritório onde trabalhava como office-boy. Lembro que a minha cabeça girou: será que deveríamos ter contado aos seus pais sobre o delito cometido? será que seus pais realmente não sabiam? será? será? Confesso que senti alguma culpa, culpa mesmo, pois isso nunca me saiu da cabeça. Caramba! que bela bola era aquela... Como devolvê-la? Como perder o nosso objeto desejado? Será que o Diabo morava nos nossos desejos, como acreditavam os mais velhos? Com o passar dos anos eu fui percebendo que eles tinham razão.
Depois desse episódio nunca mais tive notícias do garoto bom de bola. Pelo que sei ele, que era menor de idade à época, parou por aí. Nunca mais tivemos notícias de nenhum outro acontecimento ilegal. Acho que o susto de ser pego e o fato de ficar à disposição e vigiado pelo Juizado de Menores por algum tempo serviu para corrigir os desvios de caráter. Ainda bem. Naqueles tempos Americana era uma cidade tranquila, com baixo nível de criminalidade. Lembro-me que andávamos à pé pelas madrugadas, voltando de festinhas e nunca corríamos perigos. Fatos como o que relatei eram bem raros e muito mais raros eram os episódios envolvendo violência; quando acontecia algum, era uma espantosa comoção pública.
O tempo foi passando, passando e chegamos aos dias atuais. Hoje, Americana conta com uma estrutura desportiva ampla e pública esparramada pela cidade, o que não acontecia na minha infância. Assim, acredito que o grande desejo dos meninos da cidade não deve ser uma bola de futebol, pois vejo que muitos têm e, quando não têm, a Prefeitura tem e todos podem jogar. Na minha infância, ter uma boa quadra desportiva, um bom campo de futebol e uma boa bola era o máximo. Poucos tinham acesso, só as crianças oriundas de famílias mais ricas de fato tinham, já que elas frequentavam clubes privados, inacessíveis à maioria da população.
E daí, acabaram-se os desejos? Não, de jeito nenhum. Vivemos numa sociedade que produz desejos, muitos desejos, um após o outro. Todo dia um novo desejo é criado, sem que nos demos conta. Hoje as crianças desejam tênis de marca, vídeo games, celulares etc. Os desejos são criados de forma bem mais ostensiva que nos anos sessenta do século passado, quando ainda não éramos, de fato, uma autêntica "sociedade de consumo". Os desejos são criados, mas o acesso a eles ainda não é para todos. O acesso só é possível aos que têm renda, isso que Keynes (economista britânico) chamou de demanda efetiva. Assim, o sonho de ter um tênis bacana na infância não é para todos. Quem nunca ouviu falar de um menino que se viu obrigado a tirar seu tênis por "meninos de rua" e voltar descalço para casa? Eu já, várias vezes.
A criação contínua de desejos, os mais variados possíveis, pela propaganda a serviço da indústria numa sociedade muito desigual como a nossa não pode ser considerada uma coisa boa e, de fato, não é. O aumento da violência, com destaque para os furtos praticados por menores de idade, é um bom exemplo disso. Exigir que crianças, seres em formação, sublimem seus desejos, quando eles são diuturnamente enfiados nas suas pequenas cabeças pelos meios de comunicação, parece-me no mínimo um contrassenso. Na verdade, considero uma grande hipocrisia, pois tentam inculcar a culpa nas vítimas. A hipocrisia é a marca, a grife mais conhecida, da sociedade de consumo.
Quando escrevo estas palavras, sei que muitos entre aqueles que nunca se sentiram privados do acesso aos bens de consumo talvez não consigam compreendê-las. Para compreendê-las é preciso que saiam do seu mundo protegido, indo além dos seusbunkers, os condomínios fechados e os shopping centers protegidos, e se coloquem no lugar dos excluídos, dos muitos excluídos. Eles são muitos mesmo. Não é uma tarefa fácil em tempos tão individualistas, egoístas mesmo, como os tempos atuais, mas é uma tarefa necessária. O colocar-se no lugar dos que sofrem é um ato de caridade, é a verdadeira caridade propugnada pelo cristianismo, que encontra as suas raízes na compaixão. Estamos num país majoritariamente cristão, ou não? Será que somos como aqueles fariseus, aos quais Jesus chamava de sepulcros caiados, que agem como zeladores prestimosos dos bons costumes, das leis, que são belos na aparência e podres por dentro? Aliás, o que conta na sociedade de consumo é a aparência; trata-se de uma sociedade farisaica. Alguém discorda?

Caminho para as Índias 1: o retorno de Narciso


       
Estávamos na segunda metade do ano de 1974, já caminhando para o fim do ano, quando, num fim de tarde, um rapaz bem cabeludo e barbudo, com uma mochila enorme nas costas, trajando uma jaqueta jeans surrada pelo uso, subiu as escadas da sede da União Estudantil Americanense - UEA (1), entidade da qual eu fui um dos dirigentes, localizada em frente à Praça Comendador Muller, no centro da cidade, num sobrado onde poucos anos antes funcionou a Câmara Municipal. Rapidamente ele foi reconhecido pelos presentes e eu era um deles; tratava-se de Narciso, um jovem de Americana (SP) que, há mais ou menos um ano, resolveu sair vagando pelo Brasil como hippie, algo que era bastante comum naqueles tempos.
Contou-nos resumidamente sobre as suas andanças, que foram muitas e, em seguida rumou à residência de sua mãe, que se tratava de um apartamento localizado na região central da cidade, se não me engano, é muito tempo para a minha memória. A passagem de hippies por Americana era bastante comum à época. O mais corriqueiro era eles apearem na estação ferroviária e seguirem a pé até a Praça Comendador Muller, onde estendiam panos no chão para exporem os seus artesanatos, que consistiam, na maioria das vezes, de bijuterias feitas com fios de cobre. Rapidamente, juntavam-se pessoas no entorno deles, principalmente pessoas do sexo feminino, interessadas nos artefatos à venda. Não foi assim com Narciso, que não estava de passagem, pois ele voltava para casa, abandonando a sua vida nômade. A sede da UEA foi a sua primeira parada na cidade antes que ele rumasse a sua antiga moradia.
Os dias que se seguiram é que foram interessantes. Nas suas andanças pelo país, Narciso acabou passando algum tempo com seguidores da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishina, ou simplesmente ISKCON (International Society for Krishna Consciousness), conhecida popularmente como "Movimento Hare Krishina", no Estado do Rio de Janeiro. Ele nos contou sobre o Movimento e o que aprendeu sobre Krishina e o hinduísmo. Narciso era um bom contador de histórias, admito. Tudo aquilo, principalmente naquela época, era muito estranho para mim e para meus companheiros da União Estudantil. O Oriente era um imenso mistério.
A coisa não parou por aí, pois ele trouxe na sua mochila uma boa quantidade de incenso. Foi a primeira vez que vi incensos de vareta, antes só conhecia o incenso da igreja católica, aquele que era queimado no turíbulo. A partir dos seus incensos e do mantra que Narciso nos ensinou (Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare), começamos a realizar um ritual antes de nossas reuniões, acedendo incensos e repetindo o mantra 108 vezes, marcados nas contas do Japa Mala (rosário indiano com 108 contas) do nosso amigo. Fazíamos isso dançando em círculos. Confesso que era muito agradável, é o que a minha memória indica, apesar da já significativa longevidade temporal. Fizemos o ritual muitas vezes e acho que deixamos de fazê-lo por conta do término dos incensos. Naquela época não havia em Americana uma lojinha de produtos "esotéricos".
No ano de 1974, eu li pela primeira vez um romance do escritor alemão Hermann Hesse (1877 - 1962). Tinha lido Demian, escrito em 1917, e aquele pequeno contato com a Índia, através do jovem Narciso, levou-me a ler Sidarta (1922), que se trata de uma rica interpretação pessoal do autor sobre as correntes filosóficas do Oriente. Hesse era filho de pais missionários protestantes que pregaram o cristianismo na Índia. Veio daí o seu interesse inicial pelo Oriente, mas o interesse definitivo aconteceu a partir de sua viagem à Índia em 1911. Algum tempo depois, ele teve contato com a psicologia analítica por meio de um discípulo de Carl Gustav Jung. Então, estas duas influências seriam decisivas no posterior desenvolvimento da obra de Hermann Hesse. Eu, por minha vez, no ano de 1974, tornei-me leitor fervoroso do escritor alemão e através dele fui desenvolvendo minhas impressões sobre o Oriente.
Este meu breve relato foi o meu primeiro contato com o mundo oriental. A partir daí outros surgirão, todos de forma inusitada, até que, no ano de 2007, farei a minha primeira viagem à Índia, que será uma experiência também inusitada, inusitada mesmo. Interrompo a minha narrativa por aqui, pois pretendo relatar as várias experiências anteriores à primeira viagem e as que acontecerão na sequência, nos anos posteriores a 2007. Aguardem!

O sapo e os morangos



É comum, extremamente comum, encontrar o morango como campeão disparado nos resultados de pesquisas sobre a presença de agrotóxicos em alimentos. Ele tem a casca fina e rugosa, o que o torna adequado ao armazenamento de resíduos. Além disso, ele tem um ciclo curto de floração e frutificação, não dando tempo para os venenos se dissiparem. Para agravar a situação, muitos produtores costumam usar componentes químicos que não deveriam ser utilizados no seu cultivo; um deles é a vinclozolina, que se trata de um fungicida muito usado na cultura do feijão (1).
Além de usarem agrotóxicos, é corriqueiro os agricultores brasileiros não respeitarem as normas de uso dos pesticidas que, muitas vezes, eles desconhecem. Outra coisa muito importante que geralmente passa ao largo é o intervalo de segurança, ou seja, o tempo entre a aplicação do veneno e a colheita dos alimentos. É comum a colheita acontecer antes do período indicado, aquele que, em tese, garantiria a dissolução do veneno. No caso do morango, como foi dito acima, a situação é bem mais grave, pois o tamanho do seu ciclo nem permite uma dissolução adequada. Conclusão: só coma morangos orgânicos, estes não contêm resíduos de agrotóxicos.
Por que estou falando de morangos? Simples, porque eu já plantei morangos. No início dos anos 80, eu morava com meus pais em Americana (SP), num bairro periférico chamado Jardim Alvorada. A nossa casa tinha um quintal de bom tamanho e como meu pai havia se aposentado, ele se dedicava ao cultivo de hortaliças. Nenhum produto químico era usado na plantação, pois ela era fertilizada com esterco de gado bovino. A terra era muito rica em microbiodiversidade, com a presença de muitos insetos benignos e de minhocas, muitas minhocas... Meu pai, o senhor Aristides, que era um amante da pesca, tinha um estoque infindável de iscas de excelente qualidade a sua disposição. Desde aquela época descobri empiricamente uma verdade: um solo saudável produzirá plantas saudáveis (ver meu artigo "Meditações a partir da horta doméstica da minha casa", neste blog (2)).
Eu, no auge da minha juventude, trabalhava numa jornada de oito horas diárias e nas horas vagas exercia a minha militância política, que era muito intensa. Não me sobrava muito tempo, não tinha o mesmo tempo que meu pai para me dedicar à horticultura. Mesmo assim, resolvi fazer alguma coisa, resolvi plantar morangos. Comecei com um canteiro pequeno e rapidamente o seu tamanho multiplicou-se. Como o meu pai, no trato da sua horta, eu nunca usava agroquímicos e para fertilizar a terra também usava o esterco bovino, que era bem disponível na região por conta do Instituto de Zootecnia de Nova Odessa (IZ), que fazia divisa com o nosso bairro. Para garantir que os morangos não se sujassem em contato com a terra do canteiro, eu espalhava palha de arroz entre as mudas, funcionava muito bem e, além disso, tal proteção saía-me gratuita e era natural, bem diferente daqueles plásticos que os agricultores estendem no chão, entre os pés de morangos.
Num dia qualquer, enquanto eu cuidava da minha plantação, retirando com as mãos o mato que crescia no meio dela, acabei por encontrar escondido entre as folhagens um sapo. Era um sapo grande, grande mesmo. Olhei para ele, achei-o bonito, imponente, e decidi que ele poderia permanecer no quintal, se ele assim o desejasse. Falei com meus pais sobre isso. Eles, que nasceram e cresceram no meio rural, não estranharam. Assim, o sapo lá permaneceu por muito tempo.
Estabelecemos uma parceria útil aos dois lados: o sapo tinha a moradia garantida num terreno úmido e cheio de bichinhos e, em contrapartida, ele controlava a população de insetos para mim, comendo-os. Acho que tinha comida em quantidade suficiente, pois a sua permanência estendeu-se por um tempo bem longo, não consigo precisar quanto.
Tanto a horta do meu pai como a minha plantação de morango prosperaram. A horta era mais que suficiente para o nosso consumo e, por conta disso, os vizinhos começaram a comprar hortaliças do nosso quintal. Isso garantia uma renda extra, que era muito bem-vinda. Por sua vez, a produção de morangos, que só aumentava, levou-me a intentar outras experiências. Comecei a produzir geleia de morango e aprendi a fazer tortas iguais àquelas que vemos nas prateleiras envidraçadas das confeitarias. Contudo tinha uma diferença, eu costumava fazer tortas enormes, do tamanho de pizzas, com muitos morangos. Era um certo exagero, confesso, mas eram saborosíssimas, pois afirmo, sem nenhuma dúvida: os morangos orgânicos são muito mais saborosos, acreditem!
A minha parceria com o sapo foi longa e muito útil, sem dúvida nenhuma. Aliás ele acabou se tornando um tipo de animal doméstico e como qualquer animal desse tipo, vivia tentando entrar em casa. A minha mãe, a dona Aparecida, enxotava-o com uma vassoura, mas ele sempre tentava... Um dia, assim como ele tinha aparecido, ele desapareceu. Acredito que tenha se cansado da vida longe dos animais da sua espécie e tenha resolvido voltar ao seu brejo de origem. Perto da minha casa, nas terras do IZ, passava o rio Quilombo e nas suas margens normalmente alagadas deveriam existir muitos sapos. Acho que ele voltou para lá depois de viver uma experiência diferente entre animais de outra espécie.
Eu, por minha vez, continuei produzindo morangos e fazendo geleias e tortas. Só parei com essas atividades quando me mudei de Americana. Corria o ano de 1986, quando eu e minha namorada Claudia decidimos morar juntos e nos mudarmos para Bauru (SP), por conta de mudanças no campo do trabalho. Meu pai continuou com a sua horta, mas não se interessou pelos morangos. Depois disso nunca mais os plantei, mas sei como fazê-lo, garanto! Hoje cuido de uma horta na minha residência em Campinas, mas não consigo ver espaço suficiente para iniciar um cultivo de morangos; o terreno livre da minha casa em Campinas (SP) é menor que o de Americana. Contudo, a ideia não me sai da cabeça e, de alguma forma, pretendo pô-la em prática, algum dia... Se algum sapo aparecer e topar uma parceria, será bem vindo.

(1) Ranking do veneno (artigo extraído da revista Saúde). Disponível em: http://www.agrisustentavel.com/toxicos/ranking.htm. Acesso: 30 de maio de 2015.
(2) http://zildo-gallo.blogspot.com.br/2015/02/meditacoes-partir-da-horta-domestica-da.html
PS.: Informe-se sobre a agroecologia e sobre os alimentos saudáveis. A internet tem muitos sites que tratam do assunto; o endereço citado acima é um deles.

É de graça! Sobre a necessidade da refazenda.



Lembro-me que, antes de me mudar com a minha família do meio rural do município de Borborema (SP) para a zona urbana de Americana (SP), no ano de 1963, eu nunca havia presenciado o comércio de frutas. Confesso que estranhei muito. Nos sítios, além das várias lavouras temporárias e dos cafezais, existiam pomares com grande variedade de frutas e, conforme cada época do ano, cada árvore frutífera oferecia a todos, de forma gratuita, os seus frutos. Trago na memória a época da jabuticaba, da goiaba e da manga, que eram as frutas que mais me atraiam. Por sua vez, mamões, bananas e melancias existiam o tempo todo, não eram frutas de época, não eram temporãs.

A partir do momento que passei a morar na cidade, a abundância frutífera e a gratuidade desapareceram. Demorou muito para me acostumar com o fato de que só comeria frutas se as comprasse na quitanda. Assim, por conta da pobreza, a minha alimentação piorou muito na cidade. Lembro-me nitidamente que havia no meio rural uma saudável troca de produtos entre os vizinhos, era uma troca permanente e rotineira. Até mesmo nas cidades pequenas tal fenômeno existia, pois era comum a existência de pomares e hortas nas residências urbanas. A gratuidade e a troca não mercantil ainda faziam parte do cotidiano das pessoas nos anos sessenta do século passado.

Hoje, quando a maioria esmagadora da população mora no meio urbano, as famílias perderam o hábito de cultivar pomares e hortas como antigamente se fazia e, por conta disso, o hábito da troca também desapareceu. Para muitos, esses hábitos chegam a parecer uma aberração, de tão comprometidos que estão com a ideia de que tudo tem um preço e que só é possível conseguir as coisas pagando com dinheiro por elas. A gratuidade parece algo pecaminoso, um pecado contra o mercado, contra a economia de mercado. Além disso, muitos se incomodam com a natureza no meio urbano; quem nunca ouviu alguém dizer que uma árvore frutífera suja a calçada? O afastamento da natureza é tal que muitas pessoas consideram folhas, flores e frutos como sujeira. Quem nunca viu uma senhora neurótica varrendo o tempo todo as folhas da calçada?

Vou contar uma história. Nos anos de 1988 e 1989, eu morei com minha família no bairro Santa Genebra em Campinas (SP). Ao lado da minha casa morava uma mulher neurótica por limpeza, que se incomodava demais com as folhas que caíam das árvores. Teve um dia que ele se irritou tanto e passou muito mal, tendo que ser internada num hospital. As folhas caíam e ela varria e, mal ela acabava de varrer, as folhas caíam de novo e ela retomava a varrição e assim sucessivamente... Ela não conseguia deixar a calçada livre das folhas e isso a deixava doente. A saída que sua família encontrou foi contratar um garoto que ficava atento o tempo todo às folhas cadentes para varrê-las de imediato. Parece loucura, mas foi assim mesmo que aconteceu.

Todavia, mesmo no meio urbano, é comum encontrar ruas ou áreas livres com árvores frutíferas plantadas. É provável que algum migrante saudoso do meio rural e do estilo de vida gratuito tenha generosamente plantado as árvores para que qualquer transeunte pudesse delas se beneficiar. Trata-se de altruísmo verdadeiro, pois o benefício atinge os desconhecidos, incluindo aí os passarinhos  e  outros animais que também aproveitam as frutas da época.

A natureza tornou-se estranha para muita gente, muita gente mesmo, e será preciso que elas retomem o contato com ela para  que, a partir daí, tornem-se suas defensoras.Muito do processo de destruição ambiental vem da ignorância das pessoas sobre a natureza e os fenômenos naturais. Fazer hortas domésticas e plantar árvores frutíferas nas casas, nas ruas e nos espaços públicos ajudam na interiorização do entendimento de que o alimento do nosso corpo vem da terra, da sua fertilidade, e que não tem nenhum problema ela nos oferecer os seus frutos gratuitamente, pois é assim que acontece na natureza selvagem, não controlada pelo mercado, pelo capital. Não é nenhum pecado apanhar uma fruta do pé e não pagar por ela. Meu Deus! colocamos preço em tudo...

Vou mais longe, pois considero que deveria ser uma política pública a disseminação de árvores frutíferas pelas praças, parques, ruas, avenidas escolas etc. Além disso, as prefeituras poderiam estimular nos habitantes o hábito do cultivo de hortas e pomares nas suas residências. Acho que a segurança alimentar dos cidadãos aumentaria bastante com isso e, mais importante ainda, esse poderia ser o começo da reconexão com a natureza, que é essencial no atual momento do planeta Terra. Estou sugerindo uma refazendacomo aquela da belíssima canção de Gilberto Gil, que nos ensina que a vida vem em ciclos, nos moldes da natureza:

Refazenda

Abacateiro acataremos teu ato
Nós também somos do mato como o pato e o leão
Aguardaremos brincaremos no regato
Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração
Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
Abacateiro sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem o seu agosto azedo
Cedo, antes que o janeiro doce manga venha ser também
Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar
Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba

Brincando de fazer poesia em 1975: lembranças do velho Kennedy




Fuçando em arquivos antigos, encontrei um poema que escrevi quando fazia o colegial no Instituto de Educação Estadual Presidente Kennedy (IEEPK) em Americana (SP), nos idos de 1975. Lembrei-me daqueles bons tempos, da boa qualidade de ensino e dos muitos bons professores que tive; foram muitos, muitos mesmo. Lembrei-me em particular do professor Wilson Camargo (português, literatura etc.), que primava pela didática impecável e pela imensa erudição. Hoje, eu avalio que construí, naqueles tempos, naquela escola, uma base sólida de conhecimentos que serviu como salvo conduto (ainda serve) na minha caminhada intelectual mundo afora. Só tenho agradecimentos. Segue a história do poema.
Depois de uma aula de filosofia (acho que era filosofia, faz muito tempo...) do terceiro colegial no velho Kennedy eu escrevi um poema, reportando-me ao assunto da aula; acredito que, com os parcos recursos teórico-filosóficos que dispunha naquela época, apesar de ser um bom aluno e um ávido leitor sobre os mais variados assuntos, consegui expressar-me sobre o lado utilitarista e neurótico das relações humanas, que pode ser estremado em determinadas circunstâncias.
A aula havia tratado da subjetividade dos valores. Era mais ou menos assim, bem simples: tem valor aquilo que é útil, aquilo que satisfaz uma necessidade (física ou psíquica); quando um objeto desejado torna-se difícil de ser alcançado, seu valor tende a aumentar, podendo, inclusive, tornar-se uma obsessão, uma doença, e isso pode produzir consequências funestas. É disso que fala o poema, que fiz por pura brincadeira nos idos de 1975 ao final de uma aula.
Em homenagem ao Kennedy, aos professores e aos alunos, meus inesquecíveis colegas de caminhada daqueles tempos (como esquecê-los?), vamos ao poema:

TEORIA DOS VALORES

João gostava de Maria,
portanto uma necessidade Maria era
ao psiquismo joanino.
Se necessária era,
alguma coisa ela valia.
João precisava dos valores de Maria,
para reencontrar o perdido do equilíbrio
ou  o equilíbrio do perdido.

Mas Maria indiferente
não percebia a não indiferença
do desequilibrado João.

João desesperou-se,
tinha que preencher esse vazio;
valorizou-se de cachaça,
valeu-se de um revolver
e desvalorizou Maria.

João saiu desesperado, gritando
que a vida nada valia
e, desvalorizado,
meteu um tiro no ouvido.

Zildo Gallo - Americana (SP), 27 de agosto de 1975

PS.: Cursei o ginásio e o colégio no IEEPK, mas os quatro anos do curso primário eu cursei no Centro Educacional SESI 101, na Vila Frezarim (1964-1967). Tenho boas lembranças da minha turma, das professoras (Dona Zenaide e Dona Sônia) e, hoje, consigo avaliar como boa a qualidade do ensino que recebi naquela escola.


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Recuperação de áreas degradadas em São Roque do Canaã (ES): um caso de sucesso

Zildo Gallo

    Município de São Roque do Canaã  (ES) - área urbana



Muitas pesquisas têm sido desenvolvidas no tocante à recuperação de áreas degradadas, mas a de Gerson de Freitas Junior, realizada sob a minha orientação no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente (Mestrado e Doutorado) do Centro Universitário de Araraquara - UNIARA, merece um destaque especial por ter saído dos intramuros da universidade e se tornado um bom exemplo de teoria que se torna práxis. O resultado da pesquisa está registrado na dissertação intitulada "Revegetação de mata ciliar em áreas de extração de argila no município de São Roque do Canaã-ES", que deverá ser publicada em formato de livro em breve.

Cada área degradada possui especificidades quanto aos processos que a levaram ao seu atual estado de degradação e, destes processos, muito dependem as estratégias ideais de intervenção para a restauração das funções ecológicas das áreas. Gerson testou em campo um modelo de recuperação pensado no seu processo de orientação relacionado à restauração florestal de áreas de retirada de argila para a indústria cerâmica (telhas, tijolos, pisos etc.) no município de São Roque do Canaã (ES).
A indústria de cerâmica é necessária à econômicas e ao desenvolvimento social de São Roque do Canaã. Um dos principais aspectos da atividade ceramista no município está na geração de emprego. Todavia, esta atividade interfere diretamente na preservação ambiental, cujas principais consequências são a perda da biodiversidade, da fertilidade natural do solo e a interferência nos recursos hídricos da região. A imagem que se tem da mineração não é boa, não somente em São Roque do Canaã, assim como em todo o Brasil. Ambientalistas, imprensa e sociedade enxergam a atividade mineraria ligada ao impacto visual negativo, principalmente.
A melhor forma de diminuir os impactos causados no solo pela mineração é pelo estabelecimento de uma cobertura vegetal perene sobre o local minerado. Assim, considerando o perfil da mineração em São Roque do Canaã, optou-se pelo estudo das áreas mineradas de argila por meio de um “Projeto Piloto de Revegetação”. Os resultados da pesquisa contribuíram para o aperfeiçoar o trabalho de revegetação em áreas de extração de argila, destacando-se também por proporcionar um desenho de políticas públicas, com atores coletivos, tanto públicos como privados.
O projeto foi desenvolvido nas áreas mineradas de São Roque do Canaã, baseando-se em estudo detalhado das áreas de extração de argila, buscando obter uma ideia real da extensão da mineração dentro do município e descrever a situação em que essas áreas se encontram, caracterizando, também, possíveis recuperações existentes. Delimitou-se uma parcela de um hectare da área de extração de argila localizada em São Dalmácio, distrito da cidade, às margens do rio Santa Maria do Rio Doce, para a implantação do projeto piloto de revegetação com espécies de mata ciliar ocorrentes na região.
A pesquisa objetivou propor um desenho de políticas públicas locais, visando a recuperação de áreas florestais, envolvendo atores individuais, coletivos, públicos e privados, promovendo parcerias com diversos setores, articulando-os para a expansão do projeto piloto, com a criação de um “Conselho de Ceramistas” e com o apoio da Prefeitura Municipal de São Roque do Canaã.
O estudo realizado em São Roque do Canaã está relacionado à recuperação de área em curto prazo por meio do estabelecimento de uma cobertura vegetal com espécies nativas da Mata Atlântica. No curto prazo, em termos recuperação de áreas mineradas, os processos são os seguintes: recomposição da topografia do terreno, controle da erosão do solo, revegetação do solo, correção dos níveis de fertilidade do solo, amenização do impacto da paisagem e controle da reposição de estéreis e rejeitos.
O estudo da mata ciliar como ecossistema foi muito importante para a pesquisa, pois o projeto foi introduzido em áreas ciliares onde existem formações argilosas aptas à extração, localizadas às margens do rio Santa Maria do Rio Doce, no município de São Roque do Canaã (ES). As principais funções das matas ciliares são: controlar a erosão nas margens dos rios, evitando o assoreamento; minimizar os efeitos das enchentes; manter a qualidade e quantidade das águas; filtrar os possíveis resíduos de produtos químicos como agrotóxicos e fertilizantes e auxiliar na proteção da fauna local.
No levantamento prévio dos pontos de mineração de argila observou-se uma grande concentração de pontos de extração de argila na região mais elevada do município, mais próxima do ponto onde acontece a divisa territorial entre os municípios de São Roque do Canaã e Santa Teresa. Essa predominância se explica pelo fato de que essa parte do terreno possui áreas mais planas, oferecendo facilidade no manejo do solo, o que representa menores custos para as empresas ceramistas da região. Durante o trabalho de investigação sobre as áreas degradadas pela mineração, não foram encontradas áreas recuperadas após o término da exploração. As áreas mineradas estavam abandonadas e expostas a um processo de degradação continuado.
O impacto é muito grande em relação às áreas mineradas, pois existe uma concentração grande de pontos de extração de argila num espaço muito pequeno, praticamente toda a margem do rio já foi de alguma forma explorada, quer seja no caso de extração de argila, para a construção civil, quer seja pela agricultura ou pecuária, restando pouquíssima ou nenhuma área preservada na região minerada.
Durante a realização dos trabalhos de campo, inúmeros aspectos negativos foram observados com relação ao manejo do ambiente nas áreas mineradas: 1) ausência de projetos que contemplem a recuperação da área minerada ou a existência de projetos “fictícios”, que jamais serão levados a cabo; 2) a extração é feita com retro-escavadeira de comando hidráulico e produzem fossas (covas) com profundidades variando de 1 para 3 m; 3) utiliza-se mais a argila de várzea pela facilidade de captação e por apresentar elevado índice de umidade e alto grau de adensamento, mas isto produz efeitos negativos no corpo d’água (rio Santa Maria do Rio Doce); 4) a retirada da cobertura vegetal para início da mineração é feita sem nenhum critério; 5) a retirada da cobertura de solo fértil é feita sem critério e ele não é armazenado adequadamente e acaba se perdendo; 6) a extração acontece de maneira desuniforme, criando verdadeiras “crateras” na área e dificultando o processo de recuperação da vegetação; 7) depois de concluída a extração, as áreas são abandonadas e, com a ausência de cobertura vegetal, o solo fica totalmente exposto à ação do tempo em do clima.
Para um processo de reflorestamento é essencial o estudo do solo da área onde se estabelecerá o projeto de revegetação, pois fornece dados sobre a necessidade de correção de pH e sobre quais adubos deverão ser utilizados.O estudo florístico também é indispensável para o processo de revegetação com espécies nativas da Mata Atlântica. Ele foi realizado utilizando coletas aleatórias de fragmentação das espécies presentes nas margens do rio Santa Maria do Rio Doce. A revegetação de uma área degradada envolve custos altos de implantação e de manutenção. O levantamento do custo foi feito a partir das informações sobre os produtos utilizados, desde máquinas e implementos até o trabalho humano.
A maior parte dos gastos com o projeto piloto, principalmente os relacionados ao uso das máquinas, foi custeada pela Câmara de Vereadores. As mudas foram doadas pela ONG Bombeiros Voluntários de Santa Teresa, que, inclusive, auxiliou no plantio. Para enfrentar a questão dos custos elevados, tanto da implantação como da manutenção surgiu a ideia de se criar um caixa entre os ceramistas, com o pagamento mensal no valor de um salário mínimo. Este fundo somado à parceria com a Prefeitura, que disponibilizaria as máquinas, tornaria viável um processo permanente de recuperação das áreas degradadas pela mineração de argila.
A área de implantação do projeto piloto compreende um hectare e meio de uma propriedade privada cedida pela família proprietária, localizada às margens do rio Santa Maria do Rio Doce, em São Roque do Canaã, ES, região Centro-Oeste do Estado do Espírito Santo. O projeto foi realizado com várias parcerias: Prefeitura Municipal de São Roque do Canaã, Escola Agrotécnica Federal de Santa Teresa, Câmara de Vereadores de São Roque do Canaã, Bombeiros Voluntários de Santa Teresa e empresas privadas.
A participação da prefeitura do município de São Roque do Canaã foi de extrema importância, devido a sua influência local sobre os ceramistas, facilitando os trâmites legais e a realização de reuniões, além da facilitação de recursos e maquinários. A primeira reunião aconteceu em 18 de setembro de 2007, com o intuito de apresentar a ideia do projeto piloto para buscar financiamento com os ceramistas e também para deixar os vereadores cientes das intenções expressas no projeto em questão.
Uma parte importante no processo de recuperação é estabelecer condições apropriadas para o crescimento das plantas. A preparação do terreno deve ser feita de maneira a atender as necessidades das plantas a serem introduzidas. Os aspectos químicos da preparação do terreno foram direcionados no sentido de garantir as melhores condições possíveis para o crescimento das plantas. As seguintes etapas foram realizadas: preparação das covas e adubação; plantio das árvores e irrigação; controle de pragas, replantio e manutenção da área revegetada.
Repercussão do projeto e participação do poder público local. Em 16 de julho de 2008, ocorreu uma reunião com ceramistas visando à expansão do projeto piloto, sob a coordenação do mestrando Gerson de Freitas Junior e da empresária ceramista Márcia Aparecida Volpi Calci. Oito cerâmicas estavam representadas no evento: Unitelha, São Roque, Santa Maria, Mundial, Arco-Íris, Safira e Elite. Ainda se faziam presentes representantes dos fabricantes de esquadrias de madeira da região: Bassani e Santa Maria. O objetivo do encontro era reunir as empresas para trabalhar com a recuperação das áreas mineradas e, futuramente, expandir para as nascentes.
Nesta reunião, decidiu-se que o projeto piloto serviria de base para outros projetos. Também ficou decidido que, para cada etapa dos trabalhos, seria elaborado um orçamento para provisão de fundos para sua implantação. Decidiu-se ainda que uma pessoa seria contratada para preparar os projetos, acompanhar os trabalhos, vistoriar as áreas trabalhadas e fazer os relatórios e a prestação de contas para a associação em processo de formação. A intenção era criar uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), com os seguintes objetivos: recuperação de áreas degradadas; educação ambiental; limpeza do leito e das margens do Rio Santa Maria do Rio Doce; buscar meios para instalar uma usina de separação e compostagem dos resíduos domiciliares. Assim, ema 23 de julho de 2008 começou o trabalho de expansão do projeto piloto juntamente com a Prefeitura de São Roque do Canaã e empresários do ramos cerâmico e de esquadrias de madeira, com o plantio de 1.500 árvores numa propriedade particular, também no distrito de São Dalmácio, em São Roque do Canaã.
É importante frisar que o projeto Revegetação de Mata Ciliar em Áreas de Extração de Argila no Município de São Roque do Canaã ( ES) que, além de possuir um caráter marcadamente extensionista, tratou-se de uma pesquisa nova para o Estado do Espírito Santo e para o município. O trabalho trouxe informações e produziu novas estratégias, que se confirmaram viáveis, sobre recuperação ecológica das áreas de mineração de argila por meio de procedimentos de revegetação com espécies nativas e chegou a constituir-se numa alternativa para conhecer, avaliar e encontrar soluções para as carências ou deficiências em nível local, envolvendo parcerias público-privadas, com envolvimento da sociedade civil organizada.
É grave o problema ambiental relacionado à extração de argila em São Roque do Canaã. Para que a recuperação das áreas degradadas continue acontecendo é fundamental o desenvolvimento e a consolidação das parcerias que o projeto de pesquisa propiciou. Isso está acontecendo; as parcerias têm garantido o avanço no sentido de novos trabalhos de recuperação de áreas degradadas.
O estudo reforçou a importância da participação do poder público nas reuniões com os ceramistas. A interação público-privada (Câmara de Vereadores, Prefeitura Municipal, empresários, ONGs etc.) mostrou-se indispensável para a conclusão do projeto piloto, pois ambos se ajudaram financeiramente e através da disponibilização de máquinas e equipamentos, o que acabou por baratear o custo das operações.
Com a instituição de parcerias, criou-se um desenho de políticas públicas, com atores coletivos, públicos e privados que contribuiu para o sucesso do empreendimento. Os próximos projetos de revegetação já têm um roteiro a seguir e os parceiros já estão identificados e comprometidos. A pesquisa serviu também para aumentar a consciência crítica sobre a questão ambiental no município estudado. Por exemplo, algumas escolas têm levado seus alunos para conhecerem a área do projeto piloto de revegetação no distrito de São Dalmácio. Efetivamente, o projeto de pesquisa “Revegetação de Mata Ciliar em Áreas de Extração de Argila no Município de São Roque do Canaã (ES), elaborado para o Mestrado em Desenvolvimento Regional e meio Ambiente do Centro Universitário de Araraquara (UNIARA), tornou-se referência para a região e para o Estado do Espírito Santo.
Referências
FREITAS JUNIOR. G. Revegetação de mata ciliar em áreas de extração de argila no município de São Roque do Canaã, ES. Dissertação (Mestrado) - Centro Universitário de Araraquara - UNIARA, Araraquara, SP, 2009, 166p.
http://www.uniara.com.br/arquivos/file/cursos/mestrado/desenvolvimento_regional_meio_ambiente/dissertacoes/2009/gerson-de-freitas-junior.pdf


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O AUTORRETRATO PROFISSIONAL E AS ORELHAS DO MEU LIVRO

Zildo Gallo

Para os que ainda não me conhecem, este sou eu numa foto tirada por um fotografo indiano no município de Rishikesh, no Estado de Uttarakhand, no norte da Índia, às margens do rio Ganges, no sopé do Himalaia. Ela foi publicada numa das orelhas da capa do meu livro Ethos, a grande morada humana: economia, ecologia e ética (2007). Hoje, 2015, estou oito anos mais velho, chegando na casa dos 60 anos de idade, mas não mudei muito, acredito...


Na outra orelha do livro eu bati um retrato resumido (é possível resumir um retrato?) sobre o que penso sobre a economia e a natureza, um fotografia cada vez mais difícil de ser observada no mundo real, diante da trajetória destrutiva da humanidade. Contudo, pelo menos no campo utópico, esta fotografia necessita materializar-se, para que o ser humano não caminhe rumo a uma situação de barbárie. Eis o conteúdo da orelha:
Economia, Ecologia e Ética
Zildo Gallo
É cada vez mais necessária e urgente a construção de uma ética planetária. É preciso fundar um novo ethos para garantir doravante o convívio entre os homens e destes com a natureza.Então, a aproximação entre a ética e a economia também é cada vez mais necessária. O objetivo primordial do sistema econômico deveria ser, na sua essência, ético: o bem-estar.Como ainda tem muita pobreza no mundo, podemos concluir que, por muitos anos ainda, o crescimento da economia deve continuar necessário. Contudo, ele não pode se dar nos antigos moldes, concentrando renda e destruindo o meio ambiente.O compromisso da economia como ciência e como prática também deve ir além do exclusivo bem-estar dos homens, devendo considerar todos os demais seres que vivem na Terra.A crise ambiental que o planeta vive hoje, com consequências ainda não tão previsíveis, leva-nos a concluir que a morada humana não pode mais se limitar ao estado-nação, ela deve se estender por toda a Terra.O mundo globalizou-se e com ele os problemas. Cada questão de cada canto da Terra virou um problema de cada um de nós, que pensa, produz e consome. Hoje, como em nenhuma outra época, nossa casa global exige que estejamos sempre atentos às consequências dos nossos atos ao produzirmos e consumirmos. É disso tudo que trata este livro. Boa leitura! Campinas, outono de 2007.
Hoje, no final de 2015, por conta do descaso da sociedade humana com o meio ambiente e com as questões sociais, eu temo que a situação complicou-se e que a urgência tornou-se mais urgente. O tempo encurtou e parece que a imensa maioria das pessoas ainda não se apercebeu do imenso risco do naufrágio do Titanic chamado planeta Terra, que navega velozmente rumo ao imenso iceberg climático (efeito estufa). Para aqueles que quiserem saber mais sobre o assunto economia versus meio ambiente, eu estou sempre disponível para palestras e cursos. O meu e-mail é a minha forma de contato. Abaixo segue o meu autorretrato profissional.
Bacharel em Ciências Econômicas (1980) pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC-Campinas, Mestre (1995) e Doutor (2000) em Administração e Política de Recursos Minerais pelo Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Foi professor da Faculdade de Gestão e Negócios da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP (1987-2006). Atualmente é professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente (Mestrado e Doutorado) do Centro Universitário de Araraquara – UNIARA. Tem experiência em políticas públicas, gestão de recursos hídricos, economia solidária e desenvolvimento sustentável. É autor do livro Ethos, a grande morada humana: economia, ecologia e ética, Ottoni Editora. É co-autor dos livros: Desenvolvimento de Piracicaba: história e perspectivas, Editora Unimep; Agroindústria canavieira no Brasil: evolução, desenvolvimento e desafios, Editora Atlas; Gestão e negócios: entre o social e o administrativo, Edições O. L. M.; Alternativas de sustentabilidade e desenvolvimento regional, E-papers; Desenvolvimento regional e meio ambiente: os desafios da interdisciplinaridade, Publit. Publica regularmente em revistas especializadas em economia, meio ambiente e políticas públicas. Tese de doutorado: A defesa da qualidade das águas da bacia do rio Piracicaba: o papel da CETESB e de todos nós. Instituto de Geociências (IG) – Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (2000). Dissertação de mestrado: A proteção das águas, um compromisso do presente com o futuro: o caso da bacia do rio Piracicaba. Instituo de Geociências (IG) – Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1995).

E-mail: zildogallo@gmail.com

Blog: zildo-gallo.blogspot.com.br

Outras informações acadêmicas e publicações científicas: ver Currículo Lattes (CNPq)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Ocidente e Oriente, mundos divididos e complementares: não tem certo nem errado, nem superior nem inferior

Zildo Gallo

A Índia é para o Oriente o que a Grécia é para o Ocidente. Num passado distante ambos pareciam-se. Aos tempos dos filósofos pré-socráticos, a visão de mundo dos gregos era muito calcada na natureza divinizada; as divindades eram/sustentavam os fenômenos naturais e os elementos da natureza. A partir de Sócrates a filosofia começa a se desgarrar da religião e passa a se preocupar mais com o ser humano, com as questões humanas. A partir de Aristóteles, a própria natureza começa a ser vista de outra forma. Podemos localizar aí o surgimento da ciência. Nesse ponto o Ocidente começa a se afastar do Oriente em termos filosóficos.
Nesta história não tem certo nem errado, nem superior nem inferior. A partir das suas filosofias, Ocidente e Oriente avançaram nos seus conhecimentos. O mundo oriental produziu duas medicinas importantes e eficientes: a chinesa e a indiana. São medicinas que derivam das suas filosofias, que têm um caráter mais religioso, no caso o taoismo e o hinduísmo. No mundo ocidental a medicina vem de um processo de acúmulo de conhecimento sobre a natureza humana, deriva da ciência que, num determinado momento, apartou-se da filosofia.
Resumindo: filosofia e religião para os orientais não estão separadas; para os ocidentais elas são campos separados de conhecimento. No Ocidente a filosofia passou a cumprir um papel de superego da ciência, principalmente a partir do século XX; ela exerce uma crítica necessária, pois os poderes da ciência e dos cientistas necessitam de balizas éticas bem definidas para que atuem de forma a não prejudicarem os seres humanos e os demais seres do planeta. Não se trata de tarefa fácil, basta que observemos a grande crise ambiental vivida pelo planeta Terra para percebermos a extensão dos riscos da aplicação das ciências, isso que chamamos de tecnologia.
A partir do século XX, desde o seu início, Oriente e Ocidente vêm se aproximando. Nós ocidentais já cuidamos da nossa saúde com as medicina Ayurvédica (Índia) e com a Acupuntura (China). Também a expansão exponencial da Yoga em todo o Ocidente tem confirmado os benefícios dessa ciência milenar, antes restrita ao mundo oriental. É evidente que muito conhecimento ocidental está sendo assimilado pelo Oriente. Este aspecto positivo da globalização é muito bem vindo.
Acho válido reproduzir aqui neste texto um trecho do meu artigo "Caminho para as Índias 1: o retorno de Narciso", publicado neste blog, onde falo do meu primeiro contato com o oriente, particularmente com a Índia, um contato indireto, através da literatura. Muitos anos depois, viajei várias vezes à Índia e, por curiosidade, mais que curiosidade, também aprofundei as minhas leituras sobre as mitologias hindu e chinesa. O Oriente já não me parece tão secreto, em particular a Índia. Ao trecho do artigo:
"No ano de 1974, eu li pela primeira vez um romance do escritor alemão Hermann Hesse (1877 - 1962). Tinha lido Demian, escrito em 1917, e aquele pequeno contato com a Índia, através do jovem Narciso [ver artigo Caminho...], levou-me a ler Sidarta (1922), que se trata de uma rica interpretação pessoal do autor sobre as correntes filosóficas do Oriente. Hesse era filho de pais missionários protestantes que pregaram o cristianismo na Índia. Veio daí o seu interesse inicial pelo Oriente, mas o interesse definitivo aconteceu a partir de sua viagem à Índia em 1911. Algum tempo depois, ele teve contato com a psicologia analítica por meio de um discípulo de Carl Gustav Jung. Então, estas duas influências seriam decisivas no posterior desenvolvimento da obra de Hermann Hesse. Eu, por minha vez, no ano de 1974, tornei-me leitor fervoroso do escritor alemão e através dele fui desenvolvendo minhas impressões sobre o Oriente."
Na minha forma de ver, Ocidente e Oriente são profundamente complementares. No esquema abaixo eu faço uma rápida demonstração disto. Desculpem a simplificação, mas é mais ou menos assim:
Oriente -------- Fé                              Ocidente -------- Ciência
Oriente -------- Intuição                    Ocidente -------- Razão
Oriente -------- Feminino                  Ocidente -------- Masculino

Olhando para o esquema acima, parece ficar claro que a interpenetração desses dois mundos antípodas será muito benéfica para toda a humanidade. Basta que ambos os lados dispam-se de preconceitos e se aceitem. Simples assim... Para concluir, incluo aqui uma bela imagem de Krishina, com o simples objetivo de fazer um registro visual da religiosidade indiana, que é muito rica e diversificada. Hare Krishna!


terça-feira, 20 de outubro de 2015

A conversão de São Francisco: uma loucura divina

Zildo Gallo


São Francisco de Assis (1182-1226) é uma figura singular na história da humanidade. Ele era filho do comerciante italiano Pietro di Bernadone dei Moriconi e de Pica Bourlemont, de origem francesa. Os seus pais faziam parte da burguesia da cidade de Assis e eram tidos como ricos. O menino Francisco cresceu e se tornou um jovem muito popular entre os amigos pelas suas extravagâncias, pela paixão por aventuras, pelas roupas finas, pelo gosto pelas bebidas e por sua liberalidade com o dinheiro. Contudo, ele sempre se mostrava bondoso. Também era fascinado pelas histórias de cavalaria e desejava ganhar fama como herói. Assim, no ano de 1202, alistou-se como soldado na guerra que Assis travava contra Peruggia, quando foi capturado e permaneceu preso por cerca de um ano.
Quando libertado caiu doente, com episódios de febre que duraram quase todo o ano de 1204. Ali apareceram as afecções que o acompanhariam por toda a sua vida: problemas de visão e digestivos Em 1205, depois de recuperado, tentou novamente a carreira militar, engajando-se no exército papal que lutava contra Frederico II. Entretanto, desistiu da empreitada por conta de um sonho que o mandava de volta para casa. Assim o fez. Depois disso, em Assis, durante uma algazarra com seus amigos, teria sido tocado pela presença divina, e desde aquele momento, começou a perder o interesse por seus antigos hábitos e passou a mostrar preocupação pelos pobres e a manifestar desejo por uma vida religiosa.
Antes de adotar a via religiosa para a sua vida, Francisco viverá episódios ligados à fé e aos pobres e necessitados, mas o episódio da sua conversão definitiva é ímpar. Vale a pena relatá-lo. Certa feita ele entrou para orar na igreja de São Damião e ali ele teria ouvido a voz de Cristo, que lhe chamou a atenção para o estado de ruína da igreja e pediu-lhe para que ele a restaurasse. Então, ele voltou para sua casa, pegou diversos tecidos caros da loja do pai e os vendeu a baixos preços no mercado. Em seguida, voltou para a igreja e doou todo o dinheiro ao padre, para que ele reformasse o prédio.
Quando soube disso o pai ficou enfurecido e mandou que o buscassem. Assustado, Francisco escondeu-se em um celeiro, onde um amigo levava comida todos os dias. Passado algum tempo, ele decidiu revelar-se e, diante do povo de Assis, numa confissão pública, autoacusou-se de preguiçoso e desocupado. As pessoas acharam que ele tinha enlouquecido e divertiam-se com isso. O pai ouviu o tumulto e o levou para casa, acorrentando-o no porão.
Alguns dias depois, por compaixão, sua mãe livrou-o das correntes, e Francisco foi buscar refúgio junto ao bispo. O pai partiu atrás dele e o acusou de gastar sua fortuna, reclamando uma compensação pelo que ele havia tirado sem licença de sua loja. Então, para a surpresa geral, Francisco despiu todas as suas belas roupas e as colocou aos pés do pai, renunciando, com esse ato, a sua  herança. Depois pediu a bênção do bispo e partiu, completamente nu, para iniciar uma vida de pobreza ao lado do povo. Nunca mais retornou a sua casa. O bispo viu nesse gesto um sinal de Deus e se tornou seu protetor pelo resto da vida. Assim começou a trajetória de São Francisco de Assis.
Como há muito tempo estou ligado às questões ambientais e desde muito cedo adotei uma militância política de esquerda, por conta de uma preocupação permanente com a concentração das riquezas no mundo, São Francisco de Assis tornou-se uma referência para mim, mesmo na época (já distante) em que me considerava essencialmente materialista. Até estudei a sua biografia. Coisas do passado... Então, certa feita, em março de 2002, eu resolvi homenageá-lo com um poema, relembrando aquele momento insólito da sua conversão. Eis o poema:

À NUDEZ DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Quando Francisco,
Em ato de tresloucada paixão,
Livrou-se das amarras
Que ao passado lhe prendiam,
Livrou-se, também,
De histórias de duvidosa honra,
Histórias largadas ao chão,
Junto com suas vestes,
Misturadas ao pó da estrada.

E, na sua absoluta pobreza,
Tornou-se o mais rico dos homens,
Possuidor de grande tesouro
Que com todos repartia:
O amor pelas criaturas
E a compaixão pelos que sofrem.

E, desde então,
A delicada bondade
Tornou-se imbatível força
E atirar sementes aos pássaros
Um ato que nos religa
Ao espírito da criação.

Zildo Gallo, Santa Bárbara d’Oeste, SP, 07 de março de 2002

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

UMA QUESTÃO DE SENSIBILIDADE

Zildo Gallo


Num dia desses do mês de junho de 2015, passando ao lado da Catedral da Sé, na cidade de São Paulo, eu e minha companheira Claudia, vimos um garoto deitado no chão, ao lado da igreja, completamente drogado. Ele devia ter no máximo de 15 anos de idade, não mais que isso, era muito jovem. Ficamos indignados e da minha parte, naquele dia, permaneceu um incômodo que me acompanhou e por isto resolvi escrever este artigo.
A praça está tomada por viciados e a população passa por eles sem notá-los, pois eles se tornaram algo parecido com as pedras do calçamento, que são pisadas e não percebidas. São elementos da paisagem, elementos grotescos, que não merecem ser reparados, que não nos dizem respeito. Todos passam por eles, apressados (São Paulo é uma cidade apressada), e ninguém desvia o olhar, nem um pouquinho sequer, da sua trajetória, para observá-los, ainda que de relance.
Enquanto professor, nas minhas aulas, dirigidas a um público seleto de pós-graduandos (mestrado e doutorado), eu tenho repetido a mesma pergunta para cada turma nova: "quem aqui não tem nenhum membro na família que esteja na condição de usuário de drogas?" A maioria deles, às vezes a totalidade, permanece calada, em silenciosa confirmação. Eis a conclusão que cheguei há algum tempo: hoje, a toxicomania tornou-se epidêmica, espraiou-se por toda a sociedade, toda mesmo, independente da origem social de cada um dos adictos.  Ouso chamá-la de epidemia do século XXI.
Como é possível que ainda tenha tanta gente que considera o consumo de drogas como caso de polícia e não de saúde pública, como de fato ele é? Essa mudança de enfoque é mais que necessária para que se possa efetivamente dar um salto de qualidade no combate a essa epidemia, que, nos dias de hoje, atinge todos os extratos sociais, indistintamente, em todo o território nacional.

A droga é um elemento já posto para a sociedade contemporânea. Eu a considero como um aprofundamento (um mergulho nas profundezas do negativo) das características maléficas da moderna "sociedade de consumo". Neste sentido, eu reproduzo aqui o meu artigo "Keep Walking: como sutilmente o mercado produz a brevidade das coisas ou como as pessoas estão ficando cada vez mais hedonistas e individualistas" (3 de maio de 2015, neste blog), com o objetivo de deixar bem clara esta minha consideração. Ao fazê-lo, sei que corro o risco de ser considerado "careta" (conservador) pelos mais "libertários", é um risco... Ao artigo!

Keep Walking: como sutilmente o mercado produz a brevidade das coisas ou como as pessoas estão ficando cada vez mais hedonistas e individualistas

Zildo Gallo

No meu artigo "O roubo da bola de capotão", neste blog, eu falei sobre a criação contínua de desejos na economia de mercado dos dias de hoje. O lançamento de novos produtos todos os anos, tornando os anteriores "obsoletos", tornou-se a forma de ser do mercado. Criou-se uma orgia consumista que envolve uma complexa estrutura de marketing e propaganda a serviço da indústria. Praticamente a grande maioria da propaganda foca nos prazeres imediatos como forma de apelo às compras; os apelos de caráter erótico são bons exemplos disso (existe apelo mais imediato que esse?).
Há algumas décadas os meios de comunicação associados aos marqueteiros têm plasmado sub-repticiamente a ideia de que devemos consumir rápido, tirando o máximo proveito dos bens de consumo hoje, pois novos estão por vir num futuro próximo. No mercado da informática isso fica muito claro, pois ficamos sempre correndo atrás dos lançamentos todos os anos. Na indústria da moda isso virou rotina há muito tempo, há muitas décadas, e as coleções são lançadas ano a ano, conforme as estações do ano, ininterruptamente.
Tamanho massacre midiático não poderia deixar de produzir estragos comportamentais nos consumidores. Os mais jovens, que já nasceram dentro desse esquema tendem a viver na superfície e no imediatismo. A busca do prazer imediato tornou-se algo normal, tornou-se a forma de ser das novas gerações. O mercado está produzindo um ser humano essencialmente hedonista: viver significa buscar o máximo prazer, o tempo todo e em todo lugar. É óbvio que isso não é possível, a vida não é assim, não é um banquete orgiástico permanente.
Um bom exemplo disso é o incentivo ao consumo de bebidas alcoólicas. Já notaram que as propagandas de cerveja são, em sua maioria, voltadas ao público jovem, com chamamentos erotizados? Se ainda não notaram, observem. O máximo de prazer em cada garrafa e, quanto mais garrafas, mais e mais prazer, esta é a ideia subjacente nas entrelinhas de cada apelo publicitário. Do consumo de bebidas, que em termos de prazer tem seus limites bastante estreitos, para o consumo de drogas ilícitas, cujos limites são bem mais largos, é um pulo, um pulo bem curtinho. As drogas proporcionam um prazer imediato bem mais intenso. Se o objetivo é a busca pelo maior prazer o mais rápido possível, as drogas estão aí para isso, ou não? Os nossos jovens apenas estão buscando o que lhes é sugerido todos os dias pela propaganda e pela indústria. Eles são conduzidos a isso e depois são criminalizados por isso. Como eu já disse no artigo citado acima: a HIPOCRISIA é a grife número um do mercado.
As bebidas alcoólicas são vendidas à luz do dia, legalmente, e as outras drogas são vendidas às escondidas pelo crime organizado, que se enraizou em todos os extratos da sociedade, em todas as classes sociais, assim como os consumidores de drogas ilícitas; a toxicomania virou um grande negócio e movimenta fortunas diariamente. A propaganda de bebidas alcoólicas, com destaque para as cervejas, que são ofertadas como se não o fossem, abrem caminho para as drogas ilegais de forma subliminar, quando vende a ideia do logo, do eterno agora, da felicidade já.
Quando é o momento de consumir bebidas? É agora, a todo momento. O prazer está no consumir e elas não podem fazer mal algum; vejam o perfil dos consumidores: rapazes e raparigas "sarados", sensuais, alegres e despreocupados! A propaganda chama os jovens a entrarem nessa tribo, que podemos chamá-la de Tribo do Agora, cujo lema é: não deixe para consumir depois o que você pode consumir nesse instante. O seu grito de guerra é: já! já! já!
As propagandas não incentivam só o hedonismo, elas também propõem um estilo de vida individualista, onde você se tornará, o melhor, o mais visível, o único, consumindo os produtos que são anunciados para todos e que serão consumidos por muitos. É um paradoxo, mas a sociedade de consumo é mesmo paradoxal: como alguém pode ser diferente ao consumir uma ou outra marca anunciada que muitos consumirão? Um consumista contumaz responderia que ele está seguindo a onda, a moda. Bom, se ele segue a onda, ele é apenas mais um seguidor. Ser diferente é seguir a onda? Acho que o consumismo emburrece as pessoas...
Um ótimo exemplo de propaganda que incentiva o individualismo é a do uísque escocês Johnnie Walker, que é a marca de uísque mais distribuída no mundo, sendo vendida em quase todos os países. Bem, a linha de uísques da Johnnie Walker (Johnnie Walker White Label, Johnnie Walker Red Label, Johnnie Walker Black Label,  Johnnie Walker Green Label, Johnnie Walker Gold Label e Johnnie Walker Blue Label) não é acessível a todos por conta do preço, mas mesmo assim é muito acessada, a exclusividade é bem relativa. Todavia, consideremos que ela é mais acessível aos extratos de maior renda, deixando muitos consumidores de bebidas alcoólicas de fora por conta das restrições financeiras.
O slogan da Johnnie Walker é Keep Walking, que em português significa "continue andando", é um elogio ao homem que caminha em frente, sem parar, convicto da sua trajetória solitária, despreocupado em relação ao seu entorno; o que importa é ele próprio e o seu contínuo caminhar. Em português temos uma expressão para isso: "cagando e andando". A expressão popular explica a proposta da propaganda de forma cristalina: ande para frente, seguro do seu caminhar e não se afete com os que estão no seu caminho, apenas caminhe, caminhe sempre, sempre em frente: simplificando: cague para todos (desculpem a expressão chula).
Olhando para as propagandas de bebidas de forma geral, é possível concluir que elas, através de apelos sensuais e individualistas, incentivam o desenvolvimento de dois vícios graves para a convivência dos seres humanos em sociedade: o hedonismo e o individualismo. Na verdade, ambos são irmãos inseparáveis, pois eles se alimentam mutuamente. Uma sociedade baseada nos prazeres imediatos e no individualismo consumista tenderá a se degradar; parece que, neste momento, estamos vivendo um processo de degradação, onde os vícios são colocados acima das virtudes. A sociedade de consumo com a sua máquina publicitária propaga, o tempo todo, elogios e mais elogios ao vício. Gostaria que me provassem o contrário ou que, pelo menos, me compreendessem, pois é muito angustiante chegar a esta conclusão de forma solitária.


HAICAI DO DIA – 31/10/2026

Zildo Gallo   DILMA ELEITA PRIMEIRA PRESIDENTA DO NOSSO BRASIL               SÉRIE EFEMÉRIDE DO DIA