terça-feira, 2 de maio de 2017

GERMINAL (poema proletário)*

Zildo Gallo


Hoje nos roubaram a Lua
e, calados,
ensonados,
esperamos na calçada fria
a primeira lotação.
A última estrela no horizonte
lembra-nos
de que já não sonhamos mais.
O primeiro apito
da primeira fábrica
é um chamamento...
para drenarmos nossos sangues,
nossas almas...
para as tubulações
da grande caldeira social.
E, assim, tísicos,
semimortos
e mortos,
seremos o esterco
que fará crescer a magnífica videira
do nosso feitor
na nossa post mortem.
Post mortem: um pouco de latim
só para lustrar nossa desventura.

Zildo Gallo
Americana, SP, 01 de novembro de 1981
Campinas, 1º de maio de 2017 - Diretas já!
*Lembrando Emile Zola aqui nos séculos XX e XXI.


domingo, 30 de abril de 2017

BATIZADO DOS BICHOS

Zildo Gallo


Lá vem o papa-léguas
Um galinho bom corredor
E o papa-figos
E o papa-capim
Gulosos passarinhos
Também vem o papagaio
Bicho bom de conversa
E o lindo e delicado
E incansável beija-flor
Vem a paca
O tatu que vira bola
E a cotia também vem
Vem até o sapo cururu
Lá da beira do rio
Aquele que canta muito no frio
Não tão bonito como o cântico
Do sabiá da minha terra com palmeiras
Vêm chegando...
Vêm chegando...
Todos os bichinhos
E o Papa
Sorridente
A todos abençoa
Em nome de São Francisco
O bom Chiquinho
O santo da bicharada
Aqui na terra dos bichos humanos.


Zildo Gallo
Campinas, SP, 30 de abril de 2017.


sábado, 29 de abril de 2017

ÁGUAS DE OUTUBRO (via crucis)

Zildo Gallo


Voltaram as chuvas...
Caem as águas do céu cinzento
e escorrem... escorrem...
arrastando lixo e lama na negritude
do asfalto esburacado
e levam também consigo destroços
da minha carcaça exterior.

Em solitário recolhimento
isolado
silencioso
ouço os ruídos contínuos
das grossas gotas na vidraça
e o zunir do vento
que encobrem o barulho
do meu confuso pensar.

A chuva forte me põe só
na companhia de minh'alma
que das profundezas emerge
e sinto a sua dor pungente
o penar do seu confinamento
e o peso da sua missão
a sua via crucis
a difícil tarefa de me carregar pela vida.



Zildo Gallo - Piracicaba, SP, 08 de outubro de 2001


sexta-feira, 28 de abril de 2017

BIG BANG: (re)nascimento

Zildo Gallo



EXPLODIR...
silenciosa explosão
somatória de todos os barulhos
explosão obscura
portadora de toda luz
fiat lux!
explosão longínqua
e presente
sempre presente
contínua
continua... continua...
sem testemunhas
e testemunhos
saindo do nada
que é tudo
fazendo ecoar no vácuo
entre existências
um não sonoro grito
a dor do espírito
a dor do parto
do espírito universal
o Uno e o Verso
essência e existência
em (re)criação
em exposição à vida
vida que continua
EXPANDIR...
rumo ao (in)finito
e formar
em tempestuoso silêncio
em ciclos
de morte-vida
de vida-morte
ciclos transcendentais
o imenso
imensurável
e também diminuto
imensurável também
espaço da minha alma
transcendental
incidental
RETRAIR...
EXPLODIR...
EXPANDIR...
RETRAIR...



HAICAI DO DIA – 03/08/2026

  Zildo Gallo     CAPOEIRISTA NO SEU DIA DE FESTA LUTE E DANCE                 SÉRIE EFEMÉRIDE DO DIA