segunda-feira, 24 de abril de 2017

VENTO (passa o tempo)

Zildo Gallo


A menina corre ao vento
cabelos soltos
aéreos
gira-rodopia
salta-canta-grita
e subitamente para
e, sozinha, vê-se:
ridículo!
o vento passou...

O tempo...
implacável...
levou a brisa para longe...
muito longe...
da menina que rodopiava
de alegrias
muitas alegrias
sem qualquer motivo.

Zildo Gallo - Americana, 26 de outubro de 1975


Haicais de 4 (quatro) - Yoga

Zildo Gallo




      1

Mente calada
Om Namah Shivaya
Trono divinal.

      2

Infinitudes
Nada entre dois pontos
Uni(ci)dade?

      3

Só silêncios
Ânfora esperando
Águas vívidas.

      4   

Transcendência
Reconexão ao Todo
Pausa na trilha...


quinta-feira, 20 de abril de 2017

SONHOS (melancolia juvenil)

Zildo Gallo



Sonhos de suicida melancolia,
A vida na nuvem mágica.
Longe dos tempos, miserável,
Vivia uma mágica suicida.

Sonhos de vida mágica,
Suicida dos tempos.
Longe, nuvem de melancolia...
Miserável, vivia a mágica,
Melancolia dos tempos vindouros.

Sonhos de mágica, vida...
Nuvem dos tempos,
Melancolia suicida.
Longe vivia nos tempos,
Fora do tempo,
Miserável melancolia.

Sonho sobre sonhos,
Mágica nuvem,
Sonhos atemporais,
Sonhos de um suicida,
Atemporal,
Mágica de melancolia,
Sonhos... sonhos...

Zildo Gallo - Americana, SP, abril de 1975
Um poema perdido na noite dos tempos.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

ASTRONAUTA (POEMA SIDERAL)

Zildo Gallo




O homem na lua
levou o nosso medo
e carregou os nossos sonhos.

Maravilhados,
desgrudados da Terra,
sem a fome,
sem a espera,
sem o tempo
e os compromissos,
deixamos
a misturar,
desapercebidos,
o suor,
o cimento,
a fome,
a cachaça,
a sujeira,
a guerra
e a solidão.

Enquanto isso...
os edifícios em construção
procuram chegar aos céus,
modernas babéis...
incompreensíveis...

Zildo Gallo - Americana, SP, 31 de dezembro de 1981.


sábado, 15 de abril de 2017

PONTO DE MUTAÇÃO

Z|ildo Gallo




Caminhar às escuras,
Tateando... tateando...
Em direção ao nada?
Chegar no ponto de mutação,
Ponto de luz que nos levará às estrelas,
À transcendental virada ao todo (tudo),
Um primeiro passo rumo ao infinito,
Ou à "queda para baixo",
Inflexão aos subterrâneos infernais,
Um mergulho nas sombras interiores,
Inferiores...
Nossa (i)real condição.

Caminhar... caminhar...
Seguir a estrada que mergulha
Na linha do horizonte,
Encontro de céu e terra,
O zênite inatingível,
Sempre à frente,
Utopia sempre posta à frente,
Farol a guiar nossa trajetória
Até um fim de jornada.
Sempre assalta-nos a pergunta:
Terá fim a jornada?

Ao final, resta-nos a memória
Do caminho andado,
Salpicado de alegrias e tristezas,
E o vislumbre de uma inebriante luz,
Belamente imaginada.
Resta a clara compreensão da importância
Do eterno caminhar e das histórias
Construídas no caminho.
Caminhos, partidas, chegadas, caminhos...
O que conta é o movimento
Rumo aos pontos de mutação,
Por enquanto...

Piracicaba, SP, 05 de março de 2002 e Campinas, SP, 15 de abril de 2017.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

DESESPERO-ESPERANÇA (O GRITO)

Zildo Gallo


Querer... e não ver estrelas,
ponto de luz nas trevas,
cacos incertos de vida acima do asfalto,
enigma do eterno
e da esperança.

Olhar a rua que passa
e ver o mundo caminhar
do outro lado da calçada.
Andar à beira do asfalto,
andar à beira de si,
chutar a lata de lixo
e espalhar sentimentos.

Trancar-se na escuridão do quarto,
devorando incertezas.
Esperar que o peito,
dilacerado,
possa levar aos caminhos,
ao coração.
Em luta, relutar...

Sonhar, não sonhar,
viver, não viver,
se tudo acabar,
nada a perder.

Abrir porta e janela,
deixar entrar a brisa
e esperar... esperar...
Só resta o grito,
como aquele de Munch,
muito bem gritado.

Zildo Gallo - Americana, SP, 25 de setembro de 1983.
Homenagem a Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

FEITO MENINO

Zildo Gallo




Caem gotas no telhado,
gotas tristes,
sonolentas,
que me molham por dentro
e me trancam em casa
ouvindo... só ouvindo...

Um imenso desejo
de, num assalto,
feito menino,
sair pela rua
dançando, cantando...
conquistando o mundo.

Deixar suor e água
a beijarem o rosto,
ver descer a enxurrada no meio-fio,
carregando o medo e a vergonha,
toda vergonha,
de viver feito menino.


Zildo Gallo - Americana, SP, 08 de janeiro de 1984

HAICAI DO DIA – 02/08/2026

  Zildo Gallo     LUIZ GONZAGA BATEU ASAS DO SERTÃO VAI, ASA BRANCA!                   SÉRIE EFEMÉRIDE DO DIA ...